segunda-feira, 28 de junho de 2010

ALBERTO GUZIK - RIP




Na data de 26 de junho transato, morreu uma pessoa pela qual eu nutria um enorme carinho. Se não fosse meu egoísmo e minha vontade que as coisas não tivessem sido assim, eu até assumiria, assim, na cara dura, que ele está bem, bem, bem melhor que todos nós agora.

É com muito carinho, saudade e respeito, que trago à baila esse texto que fiz para você Guzik.

Fique com Deus.

Um abraço.

A ULTIMA DANÇA

Estávamos eu e minha mulher em plena alta madrugada como duas crianças, sorridentes e suados, abraçados em concha – exatamente como determina o regulamento –, um sentindo a respiração do outro, nossos cheiros se misturavam. A festa sempre começava quando ela voltava do trabalho. Eu largava o que eu estava fazendo, preparava o banho e a janta. Ela cuidava do vinho, da camisola e da cama, principalmente da cama.
Sentia pela respiração longa e tranqüila que ela começava a dormir, mas eu não conseguia acompanhá-la. Havia alguma coisa na minha cabeça, algo que eu não sabia se devia ou não fazer: um dilema.
Semana que vem, terei compromissos inadiáveis, coisas oficiais envolvendo meu salário, meu trabalho, complete bullshit e perda de tempo, pensei. Assim, usando o melhor critério que há para escolha de algo – a eliminação – decidi que me sobrava apenas amanhã para me despedir de uma amiga. Uma grande amiga.
- Acho que amanhã vou me despedir da Velha – disse.
- Hein? – perguntou minha mulher.
- A Velha. Lá na Roosevelt. Tenho que ir amanhã, semana que vem vai ser impossível, palestras, trabalhos; tem que ser amanhã.
- Amanhã eu não posso ir – respondeu meio dormindo, meio acordada – tenho reunião cedo na sexta – e apagou completamente. Só ouviria sua voz novamente no dia seguinte.
Tudo bem, pensei. Amanhã eu vou. Qualquer coisa eu vou sozinho; eu me dou bem o suficiente com a Velha pra visitá-la desacompanhado.
Satisfeito com a minha resolução, joguei o gato no chão, em cima do cachorro, e dormi.

Quinta-feira, 21 de maio de 2009.

- Felipe, tá a fim de ir ver a Velha hoje?
- Hoje? – perguntou a voz do outro lado da linha.
- É, porra! Eu disse hoje, não disse? Hoje, quinta.
- Você andou cheirando? Tá mais acelerado que o Road Runner (Papa-Léguas em português, mas Road Runner é mais conveniente, digamos assim...). Relax, cara. Relax. Mais tarde eu te ligo e combinamos.

Ele topou. Assim que fareja cerveja, conversa jogada fora e mesa de bar na Praça Roosevelt, ele cancela até reunião com o presidente. É um cara bacana.

Eu e o Felipe chegamos mais cedo, tomamos umas cervejas, fumamos uns cigarros, negamos umas esmolas, nada fora do comum.
Onze horas, a Roosevelt lotada, gente bebendo, fumando, rindo. O coração da cidade batia ali, naquela praça.
Gosto das noites de São Paulo. Não importa onde você está, tem movimento, gente falando e histórias pra contar e isso é o mais importante.

Eram onze e dez ou onze e quinze quando tocou o sino. Fui um dos primeiros a entrar e escolhi meticulosamente meu lugar. Assim que sentei os acontecimentos se passaram como um relâmpago e tal qual um relâmpago, um lampejo de vida, os descreverei.

Estava ansioso. Essa noite será diferente, seremos apenas a Velha e eu, pensei. O Felipe estava preocupado com um casal de lésbicas se beijando num canto, ele pensava se elas deixariam ele entrar na dança se pagasse um traguinho pra elas.

Sento na minha cadeira, inquieto. Minhas mãos suando, síndrome das pernas inquietas, Felipe bêbado, lésbicas se beijando e ele cada vez mais próximo delas, salivando.

Aplaudi fora de hora, ecos, a Velha me olha, ouço risos. Ela me encara. Naquele tempo as pessoas tinham talento; essa frase ecoa na minha cabeça como um diapasão. Neruda passa dançando à minha frente, bêbado como eu; dançamos funk juntos. A Velha não gosta, reclama e bebe da nossa garrafa. Cigarros importados enfeitam a mesa e nossas mãos.
Entra um moleque estranho, tatuagem inidentificável no braço, rouba a cena. “Maldito, como ousa!” penso com os meu botões, sentindo falta da Velha. O rapaz é bom, até que gosto dele e olha que não sou de gostar das pessoas, muito pelo contrário. Turbilhões e muitas coisas se passando pela minha cabeça. Posso dormir aqui; posso morar aqui e virar uma espécie de negociador. Se depender de mim a Velha nunca vai se sentir sozinha. Já trouxe umas quinquishmintilhacacan pessoas pra conhecê-la. Todos a adoram. Ela gosta, eu sei que ela gosta, conheço seu sorriso.
Ela volta a me encarar, come uma banana com dignidade e respeito inimitáveis, exatamente como fazia no seu tempo de star. Eu estou zonzo, com o coração se remexendo fora do ritmo da dança. Desligam meu celular. Este texto está muito estranho, alguém chama o Dr. Kafka, por favor.
Vi a Velha parir na minha frente. Chorei. Não queria ir embora, mas sabia que estava no fim. As luzes acenderam, ela não estava mais lá. Olhei o cenário ao meu redor, lembro da primeira vez que pisei ali. A primeira vez.
A primeira vez que vi a Velha me choquei comigo mesmo, com o Universo, nem um pouco a contragosto; na segunda ri, entendi-a, nos entendemos. Naquela noite escureceu mais do que o normal; não me incomodei. Na terceira, agora sim a contragosto, chorei.
Não pude dizer adeus à Velha da forma que queria. Embora a noite tivesse sido para nós dois - eu e ela, num reservado, no escuro, compartilhando Vodca barata -, ainda queria dizer algumas coisas antes de ir embora, mas não pude. Os ônibus depois da meia-noite param de circular pelas ruas e, da casa da Velha para a minha são duas horas – se eu conseguir pegar o último ônibus, é claro - ou noventa reais de taxi – eu sei por experiência própria. Então parti com palavras perdidas nos lábios e coração vazio como o copo que ela deixou em cima da mesa.
Cheguei em casa abatido e descabelado. Parecia um acidente de carro. Minha mulher me abraçou. Sabia o que tudo aquilo queria dizer pra mim. Um fim provavelmente irremediável. Teria que guardar minha máquina de escrever e colocar as cartas que eu havia escrito prum escritor que tenho como um amigo, Hackmuth, na gaveta. Sem a Velha por perto, tudo perde um pouco o sentido e o matiz.
Na cama, minha mulher colocou minha cabeça em seu colo. Cafunés intermináveis e apenas uma única voz conversava comigo: “Naquele tempo as pessoas tinham talento...”, “naquele tempo, as pessoas tinham respeito”, “naquele tempo...”.
- Ela vai voltar. Eu sei que vai. Sua amiga vai voltar. – dizia minha mulher.
As palavras dela me acalmaram pela simples razão de sempre estar certa.
Minha mulher sabe das coisas.

Dedico essas linhas tortas ao Marcelo Mirisola, Alberto Guzik e Chico Ribas.

BRAZUL - Ricardo Bruch


Brasil (sil sil sil), é o nome do soldado que queima a brasa no peito, azul, beija a boca do fuzil, azul, (sil sil sil), do menino, da menina, Brasil teus peitos estão à mostra, tuas veias, tuas cicatrizes, estrias nos asfalto de madrugada, um grito enlatado, entalado na garganta o dia inteiro, Brasil, que hoje é dia de jogo, todo dia é dia de jogo, todo dia, dia de fogo no corpo, nos telhados, nas casas do soldado, das meninas, dos meninos, lambendo as tetas das lombadas, beijando o bico do fuzil, queimando o coração azul, o mamilo azul, Brasil, esconda tuas cicatrizes, por que hoje é dia de jogo, atirei sim, não nego, ele reagiu, Brasil, o menino, a menina, reaja, Brasil, que teu azul não é anil, que ninguém dorme tranquilo no teu colo, que teu leite é sujo, muito embora azul.

Por que teus olhos são vermelhos?

Brasil não dorme, tem lembrança, não tem memória, tem nos dedos um quê de euforia que acaricia o clitóris do gatilho, do fuzil, azul, meninos, meninas azuis, escondidos nas tuas ancas, debaixo da madrugada, das ranhuras do cimento, escondidos sim que eu vi, Brasil, é o nome do menino caído, segurando o fuzil, uniforme azul, Brasil, é o nome da menina, perdida entre as tuas ruas, entre estreitas veias, entre o vão dos teus dentes há melancolia, azul, que tristeza é essa que ronda os teus quatro cantos, da carroça à cachaça, não chora, fica quieta, fica azul no dia de jogo, a chama do fogo azul, a fumaça, no meu peito Brasil.

Por que teus dedos são vermelhos?

(Sil sil sil)

O tempo corre na minha alma, calma, mãos ao alto, deita com calma, na cama de cimento do velho Brasil e teus abortos malfadados, meninos e fadas azuis, nem verdes, nem amarelos, azuis, almofadas azuis, no dia do jogo, mãos ao alto, eu corro para fugir do tempo do teu ventre Brasil, visualiza, legaliza, mobiliza Brasil, os teus fuzis na marcha da memória aberta da tua história, minha história, a história do soldado que morreu nas mãos da menina Brasil, por falta de dinheiro para uma trepada sem recheio, com gemido e sem amor, sem verde, sem amarelo, ouviu, Brasil.

Por que teus pés são vermelhos?

Corre Brasil, do céu, da mata, da árvore, das plantas, dos pássaros azuis, sil sil sil, acorda, já é tarde, sil sil sil, Brasil, que não tem fim nas linhas do trem, vem que tem, Brasil, tem começo, tem meio, tem sim, fim, Brasil de Souza, da Silva, Pontes cruzando tua espinha de metal azul, fabricada por gente sem olhos azuis, iguais aos teus, Brasil, da Nóbrega, dos Santos, dos fundos das lanchonetes onde as carnes morrem de fome, Brasil do meu sentido, dos meus pais, país de sofreguidão e ardil, fuzil escondido debaixo do travesseiro das minhas angustias.

Por que teu projétil é vermelho?

E da minha janela eu vejo teu céu, Brasil, tuas praças, coretos, pastores, prendas e preces, quermesses para quem, meu Deus, azul, olhando pelo Brasil soldado, menino, menina, suas plantas verdes, seu rebanho pálido, os Deuses sempre azuis, plantando flores de icterícia, nos campos verdes da tevê, se vê ali Brasil, entre os dentes do fuzil, estocadas debaixo do lençol, debaixo do teu véu, nem verde nem amarelo, bafo quente no vidro, negro, tão negro que é azul, não se vêem teus cães, teus gatos, teus canários dormindo nas gaiolas do pensamento, Brasil. Por que tuas grades são vermelhas?

Cadê teu cântico? Teu filho? Tua herança? Teu hino, teu húmus desgastado, depredado, traficado, adubado pelas mãos do Brasil, azul, dos pássaros agora extintos, (sil sil sil), do azul em extinção, de mim, de tu, de nós, da língua que morre e lambe tuas varizes tatuadas nas passadas, nas calçadas, na calada da noite, Brasil, tua celulite, buracos nas estradas, rodas, roda a roda Brasil, fica rico Brasil, manda teu fuzil para fora do meu mundo, manda teu filho para fora do teu mundo, Brasil, pra outro planeta azul, onde terá outro Brasil, natimorto, remendado, menino chamado, menina chamada, Sil, Sil, Sil, ninguém, escuta, chama a chama e morre pela queimadura do teu beijo.

Por que tuas lágrimas são vermelhas?

Brasil do sumiço, do deixa disso que hoje é dia de jogo, pego, largo, deito, infecto gripe dos teus pulmões virulentos, purulentos, macilentos da terra azul, é difícil continuar, irmão, irmã azul, dos jazigos no quintal, da lápide ilegível, da letra ilegível, da lei, do tempo, da fome, dos teus rins Brasil, me pergunto, por que Brasil, não Ilha de Vera Cruz, não Terra de Santa Cruz, Terra do Brasil, pau, Brasil, pau de antanho, de outro, de prata, de mulher, lá fora, o escravo, a janela da nossa solidão se fecha, por que hoje é dia, Brasil, hoje é dia e eu me pergunto.

Por que meus sonhos são vermelhos?

Foto retirada do site : http://gilgiardelli.wordpress.com

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Um momento

Péra,
pára
respira
respira
respira

Péra
pára
respira
respira
respira

Péra.
Pára.
Respira.

Péra

Pára

Res

Pira.

terça-feira, 22 de junho de 2010

O Artista

O texto dessa semana é um texto antiiiiiiiiiiiiiigo, lá do começo de 2008, quando eu sabia bem menos do que sei de literatura e escrita hoje. Mas é um texto que gosto. Um texto juvenil, pueril até. Talvez até me envergonhe de mostrar, mas eu gosto. Perdoem, eu gosto.

O Artista

Se eu fosse artista colocaria no papel o que meu coração insiste em gritar, meus ouvidos se forçam a musicar mas minha boca não pronuncia.

Se eu fosse artista saberia escolher as palavras mais belas e as organizaria de modo que te fizessem corar, e fizessem seu peito arquejar.

Mas não sou artista, não sou escritor, muito menos poeta. Não há cartazes na rua com meu rosto estampado, não há sessão de autógrafos, nem nada no meu nome que me identifique.

Mesmo assim faço questão de suar, perder noites e horas na esperança de ver o palco se iluminando com brilho de seus olhos acompanhados da ovação do seu sorriso, e mesmo que perdure um segundo, sentir num abraço, seu coração a me aplaudir de pé.

Mas tem um momento em que o artista sai de cena e é obrigado a ver a cortina se fechando, a orquestra parando e os aplausos amainarem; sem reconhecer um rosto sequer e sem ter riso por almejar, o artista se disfarça de sujeito comum e saí pela porta dos fundos rumo a um quarto de hotel qualquer, que de ser igual aos outros não vai se lembrar nunca.

Eu, que não sou artista, mas acompanho a todos, recolho-me para o bar, onde posso ser o artista que quiser. Peço a bebida mais cara, acendo um cigarro, mas sem beber nem tragar, durmo cansado, esperando algo que me não sei se vale a pena esperar.

Uma hora depois acordo sobressaltado, relembro que não sou artista, pego minha jaqueta, pago a conta do bar e ando na rua em busca de um rosto familiar qualquer.

Chego em casa com o Sol a me empurrar, jogo as chaves na mesa posta, e recito um poema de amor àquela que dorme e sonha. Sonha que sou artista, ilumina meu palco com o brilho de seus olhos, acompanha a ovação com seu riso, e, com entusiasmo de fã incondicional, me abraça pela eternidade, fazendo meu coração sentir seu coração me aplaudindo de pé.

Do Mestre Dostoievski


"Não, senhor, não quero saber destes forjadores de enredos! Em lugar de escrever algo de útil, agradável e consolador, comprazem-se em rebuscar as mais insignificantes minúcias, divulgando-as por aí. Francamente, eu os proibiria de pegar da pena, pois o resultado é que agente lê... e logo, sem querer, se põe a pensar no que leu.... e afinal de contas... fica com a cabeça cheia de disparates. E assim, repito: eu os proibiria de escrever, terminantemente, categoricamente, sem apelo!"

Príncipe V.F. Odoiévskii

Extraído de Gente Pobre - Dostoievski, Fiodor - Ed. José Olympio -1960

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Av. Paulista

Hoje no blog do Álvaro Alves de Faria tem um post falando de um acidente ocorrido ontem na Av. Paulista, às 22 horas, entre uma mulher num carro e um ciclista. O post está nesse link
http://blogs.jovempan.uol.com.br/poeta/geral/a-moca-do-carro-destruido-na-paulista/

Tentando afastar meus medos, meus traumas, meus fantasmas, escrevi esse poema, ou seja lá o que for.

AV. PAULISTA

Eu tenho medo dessa Paulista,
toda hora,todo dia.
Minha mulher vive zanzando por aí,
eu vivo zanzando por aí,
com medo,
mas zanzar é preciso,
viver não é preciso.

Eu não ando de bicicleta,
minha mulher também não,
mas mesmo à pé,
na Paulista a qualquer hora do dia,
tenho medo,
justamente por que alguém pode me jogar
na altura dum vigésimo quarto andar,
seguir seu caminho e deixar
minha mãe em casa se perguntando
por que é que ainda não liguei.

E ninguém vai falar nada,
e os coitadinhos
os culpados
mudam de cara,
à pé,
ou de bicicleta,
ou de carro,
ou de helicóptero.

Dependendo da hora
todo mundo é coitadinho
e a gente continua andando,
com medo,na Paulista de todo lugar.

Tentando se proteger, 17 de maio de 2010
R.B.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

A única saída - Ricardo Bruch


Eu preciso calar a boca, estancar o sangue, torniquete de sonho numa linha do futuro. Preciso ser mais direto, mais flecha, mais pássaro, submisso ao equinócio, mais pedra. E isso você disse numa segunda-feira à tarde, eu sentado no meu trono de mármore revestido com assento de plástico, lendo o jornal, com os pelos da perna duros de frio. Você falava e eu virava as páginas do jornal, nada do meu corpo atender à minha súplica: podia me inclinar para frente, para trás, forçar, deixar relaxado, era um rei que não justificava seu reinado, escravo da vontade que começava a julgar inexistente. Virava a página e você apoiada na porta, me observando, esperando para tomar banho; meus olhos desconcentrados identificavam sempre as mesmas palavras, mesmas linhas, mesma notícia; apenas passava os olhos pelas letras, sem sentimento, sem significado.
Nada saía.
Virei a página para que você achasse que estava compenetrado, preocupado com a economia nacional; franzia o cenho, mordia o lábio seco, meneava a cabeça em assentimento. Virei a página, um grito de letras garrafais pulsaram no mesmo tom frenético do meu coração cansado de corresponder ao meu esforço – nada saía.
Uma página inteira para me dizer que há 22 mil vagas de emprego. 22 mil vagas para que eu pudesse fazer o que quisesse da minha vida. 22 mil vagas, para advogados, engenheiros, arquitetos, vagas, mas nada para quem está há quarenta e cinco minutos com o rabo de fora, à guisa de exorcizar as pedras do destino rolando no estômago. E você me olha da porta do banheiro e as vagas (22 mil!) ululam e bóiam como a merda que eu tento parir, vagas para professoras, lixeiro, contadores, manhã, tarde, noite, nada que possa me ajudar no momento.
Faço força, você diz que estou vermelho como um pimentão, que não é certo fazer tanta força, eu paro, suspiro, os dedos não apertam o jornal com tanta esperança, eu sorrio para o rosto da minha mãe que se forma nos azulejos, de dentro do encanamento ela diz: A melhor saída é concurso público, e eu pensando em Hamlet, na Odisséia, no surdo-mudo da Fúria, do Som, do interior de uma cidadezinha onde eu talvez não precisasse de 22 mil vagas de zelador, frentista, bibliotecário, onde de dentro das paredes alvas do banheiro não precisasse ouvir minha mãe: A melhor saída é o concurso público. Eu escrevia versos, sonetos, sonhava com recitais, leituras de poemas ao ar livre, no Viaduto do Chá. Não é certo fazer tanta força assim.
- Escuta, vai demorar muito?
Você perguntou, impaciente comigo virando a página, tentando esquecer os conselhos das paredes, do vaso, do chuveiro que gotejou a noite inteira e não me deixou dormir; me concentrei nos pedregulhos que incham minha barriga, quase empurram meu umbigo para fora, me concentrei na dureza que fere meu intestino, e nada saía.
Um dia vi uma pomba ser atropelada por um ônibus. Suas penas voaram, ela rodou ao redor de si numa mudez agonizante de quem não sabe gritar nem pedir por socorro, apenas rodava com uma única asa, se perguntando por que não morrera na hora, com um golpe fulminante, por que estava lá, a girar, vendo as migalhas que há pouco mastigava, tingidas de sangue; no asfalto, vísceras e penas. Rodopiou até perder as forças e se aquietar na poça de seu próprio sangue. Um mendigo tentava chegar até ela mas semáforo não avermelhava. Soube que a pomba fora atropelada por que ele, com todo seu andrajo, fedor, repulsa, levou as mãos à cabeça e gritou: “Não!”. E lá estava a pomba quase morta, zumbi de si mesma, já sem observar nada, sem ver a roda dos carros, sem pensar nas migalhas, até que o golpe de um Volvo pôs fim ao seu sofrimento. O mendigo sentou no meio fio e chorou.
22 mil vagas.
22 mil oportunidades para se tornar vísceras expostas, angústias de meio fio.
22 mil oportunidades para 22 mil rodas porem fim ao sofrimento do homem.
22 mil vagas e a melhor saída é o concurso público.
Contenho a lágrima no canto dos olhos, faço força e gemo de dor.
- Conseguiu?
Não digo nada, fecho o jornal, coloco-o no chão, minhas mão se juntam, penso de novo em Hamlet e suas visões, em Dr. Fausto e nessa tarde de segunda-feira. Estou em casa criando raízes no chão gelado do banheiro, fazendo companhia para as vozes que saem de dentro do chuveiro.
E nada saía.
- Hoje eu vi uma pomba sendo atropelada.
- E daí?
Era uma pomba.
E foi atropelada.
Podia ter sido uma mulher pensando na vida, no namorado, na prova da faculdade, ou no exame de motorista que teria que fazer na sexta-feira que vem. Podia ter sido uma grávida, pensando no bebê nadando no ventre despreparado; podia ter sido alguém que acaba de conseguir uma das 22 mil vagas de emprego; 22 mil oportunidades de silêncio, doenças incuráveis e verrugas injustificadas. Podia ter sido você, ou eu, que só penso na merda dentro de mim, que se recusa a sair. Mas era uma pomba, e foi atropelada.
- Me lembrei disso agora.
- É só uma pomba.
É só uma pessoa, mulher, homem, segunda-feira, ônibus, roda de carro; São 22 mil empregos e nenhum tolete de merda nadando nesta privada.
Às vezes me sinto como um cemitério.
Não tenho coragem de te dizer isso, já que bufa, ameaça sair sem tomar banho, por minha culpa, por meu intestino vagaroso de velho precoce, cansada de esperar meu exorcismo malfadado.
- Estava pensando, concurso público talvez seja a melhor saída.
Você diz apagando o cigarro na torneira da pia.
Resignado, limpo a bunda, não olho o papel que permaneceu imaculado, dou a descarga e deixo o jornal no chão, o jornal e suas 22 mil vagas de emprego para administrador, químico, professor, e pego minha jaqueta enquanto você vê se a água do chuveiro está quente o bastante.
Busco pela rua migalhas e acaricio minhas lápides intestinais: nunca vão me abandonar.
Já não me sinto tão só, tão diferente por estar em casa numa segunda-feira à tarde, por não ligar para cada uma das 22 mil oportunidades de vazio, alegria self-sevice, happy hours tristes, deadlines, feedbacks, casas em Riviera, piscinas e churrasqueiras. Já não me sinto como uma pomba a se procurar entre as rodas, se procurar entre 22 mil vagas para se perder nos dentes da manhã.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Novidades?

Achei que mudando o look do meu recanto ia ficar com uma cara melhorzinha, mas ainda é same shit.

Como sabem, conclui meu primeiro livro que, como diz o Lobão: É um fracasso, mas eu adoro. Então agora vou me embrenhar num romance que vem me rondando.

Por isso, tentarei publicar um texto aqui por semana, ou dois no máximo, para desopilar.

Amanhã terá um texto inédito.

Hoje, vou sugerir algo à vocês. Há um video abaixo, neste mesmo post, recomendo que dêem o play e leiam o texto. Sem pressa, no ritmo da música.

Espero que sintam um frio na espinha.
Um abraço.

video




Um Jazz, Andrézão, um jazz

When He and I will be as one, canta a Nina enquanto meus dedos congelam e meus pés clamam para serem sufocados pela meia; canta para minha alma careca e aos meus olhos secos, entretidos com essa parede doente, que não ouvia sua voz, when He and I will be as one, grave, cantando do fundo de uma garrafa de vinho que não era para ser minha; eu sem poder ligar para minha mulher e dizer que o vinho está com gosto de vinagre. Posso ligar pro Massa ou pro Brunão, dizer tudo está perdido amigo, acabou a fé, quando a única coisa que queria era ligar para minha Pequena e dizer que não sei onde estão as minhas meias, que meus dedos estão gelados, todos eles, da mão, do pé, da nuca, das costas, tudo gelado, com a voz arranhada da Nina ao fundo He and I will be as one, e eu imaginando quando você, Pequena, cantava essa música para mim. Sinto mais frio, as paredes mais graves, a garrafa mais funda e você me perguntando se andei bebendo sozinho de novo, sem razão para mentir digo que o vinho está com gosto de vinagre, e você a qualquer momento vai dizer tenho que ir, vai começar a aula. Respondo para a mudez simpática do telefone que o vinho está com gosto de vinagre.

O disco roda na vitrola, eu me pergunto quantas rotações tem essa porra, pergunto em voz alta pras meias espalhadas pelo quarto como bolas da árvore de natal, protegidas pelo pó no fundo do armário, pergunto pras janelas fechadas, sofrendo os golpes da chuva, minha Pequena logo mais estará na chuva cantando baixinho He and I will be as one, e eu já em casa perguntando pra cadeira mais agasalhada do que eu quantas rotações tem essa porra, me referindo ao meu coração. A Nina diz pra mim I put a spell on you, e me sinto amaldiçoado, só por ter dito I put a spell on you, menos afinada que minha Pequena.

Penso, se eu pudesse escolher, que palavra eu seria.

Vinagre.

Disse em voz alta, com todas as letras Vinagre. Quis ligar para minha Pequena e dizer oi amor, eu sou vinagre, e desligar, rindo como quem toca a campainha das casas e sai correndo; depois vou ligar pro Massa, pro Brunão e convidá-los a tocarem campainhas e sair correndo também, debaixo do frio, com os dedos congelados, com a chuva a castigar as janelas abertas, plantando lágrimas nos olhos das paredes doentes. Vou ligar pra todos meus amigos, vamos tocar as campainhas e correr, amigos; a Nina canta esse vinho está com gosto de vinagre, ou melhor, ela grita And I don´t care If you love me, I´m yours right now. Saudades de falar com minha Pequena, que está na aula e não pode me atender, Desculpe o celular está programado para... Oi Pequena, o vinho está com gosto, ou melhor, I put a spell on you... deixe sua mensagem após o... because you´re mine.

Dou para pensar nos meus heróis, suas vísceras, vidas e me sinto vazio como um canudo, e dou para pensar em camas de hospitais, velas, velhas, cães e gatos pela metade, filhotes, avenida Santo Amaro, na fome, no gosto amargo na boca que não sai, eu juro que não sai. Ligo pro Massa, pro Brunão, pra Pequena, pra todos meus amigos, pra chorar um choro trôpego de bêbado, pra chorar os quartos de hospitais, os vivos, os poetas, a Nina, os gatos vivos, as mães, os cães vivos, os pais, os canudos que não afundam e são ocos, ligo para chorar a vida, especialmente para chorar a vida, e a meada que acaba de perder seu fio, nesse último gole de vinho que tem gosto de sangue.

Canta para mim quando eu acordar Pequena, canta outra coisa, não quero mais a Nina, não quero mais o celular que ninguém atende, canta para mim uma canção de ninar e me levanta desse chão, desgruda minha cara do livro de poesia, esfrega a saliva que escorre da minha boca pra gola da camisa branca, me levanta e me cobre com as roupas da cadeira mesmo. Canta, canta uma canção diferente, aquela que você sempre canta, melhor que a Nina, melhor que as minhas bobagens perdidas no seu caderno de estudo; canta uma canção de ninar, se essa rua, se essa rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar. Esquece o cansaço e embrenha seus dedos no meu cabelo, beija minha cabeça, liga pro Bruno, pro Massa, pra todos os meus amigos e diz que nem tudo está perdido, ainda há fé. Eu te agradeço amanhã, primeira coisa de manhã. Eu prometo.

Em forma de canudo, 31 de maio de 2010.


quarta-feira, 9 de junho de 2010

Estação Paraíso - Ricardo Bruch




- Moço como faço para ir pra Paraíso?

- Só seguir a fila daquele lado.

- Poxa, justo a fila que é maior!

- Todo mundo quer ir pra Paraíso.

As pessoas se amontoam em seus precipícios de corpos e lágrimas de suor, prendem a respiração e vão. Alguns se perdem, acabam na Consolação ou nos braços de seus Santos (Bento, Judas, Joaquim).

Mesmo sem seguir a Luz

- Todo mundo quer ir pra Paraíso,

com mochilas nas costas, bolsas pesadas de nada, papel, papel, papel, cremes para as mãos, batons no talo, espelhos trincados e carregadores de aparelho celular. Entram encurvados na estação, cansados, com a vista turva da velocidade cortante do trem, suspenso na linha azul que ninguém se dá conta. Protegem-se da chuva, formam filas e mais filas, filas para pegar fila, fila para se encostar, fila para fugir da fila, fila fica do lado de fora, para mofar na escada rolante de espera porque

- Todo mundo quer ir pra Paraíso,

mas ninguém quer tomar chuva.

Dentro da estação-purgatório Liberdade, almas e mais almas expulsas da Saúde sufocam, tossem, espirram e se esforçam para falar nos telefones; ouve-se do outro lado da linha algo repartido, interrompido, enquanto dizem

- Não to te ouvindo, não to te ouvindo,

e o vento bagunça os cabelos, a mulher derruba uma pasta com todas as contas pagas, e a garota de seios invisíveis enfia o dedo no ouvido e grita

- Não to te ouvindo, não to te ouvindo

para alguém que se desinteressa e se deslumbra com o movimento nas ruas, as cadeiras na calçada, pernas se roçando debaixo das mesas improvisadas, os copos de cervejas, as cinzas do cigarro perdidas debaixo da luz do poste na estação Luz, esquece-se da garota e seus berros de mil pulmões

- Não to te ouvindo, não to te ouvindo,

não desliga. Não desliga.

Quero sumir, pois não me sinto parte desse mundo universo-cloaca infinita; não gosto que me interrompam, me devolvam dos meus delírios estáticos, angústia silenciosa, angústia alheia e distante, distante dos garotos que roçam nas garotas com sorrisos de verão clandestino, distante do homem que bate fotos indecentes das mulheres dos seus sonhos; mas ao mesmo tempo tão perto da tempestade que deu para ser subterrânea e, além de ter molhado o túnel inteiro, inundou meu coração com dúvidas e lamentações (distantes, sempre distantes).

Tenho vontade de dizer:

- Vá você encontrar seu Paraíso.

Eu não sei onde fica, não sei.

- Vá você encontrar seu Paraíso;

você que saiu da sua Vila tranqüila de espectros e azulejos azuis das cozinhas mofadas, pipoca de microondas e pantufas de urso panda. Você que busca alento, sossego no ventre metálico de uma mãe com corpo de serpente, cuja voz é um grito de vento cronometrado.

- Vá você encontrar Paraíso,

que está com os dedos vermelhos por causa da sacola recheada de sonhos, sorrisos, sucos, com segundos contados para ruir e esparramar tudo no chão; está cansada de tentar, variar as horas e sempre dar de cara com esse formigueiro de santos esquecidos na porta do Paraíso, só porque

- Todo mundo quer ir pra Paraíso.

E o tempo come os relógios, pressa de celofane, ar viciado em expectativas do sossego, final de tarde, final da noite, do cursinho, final de tudo e o tempo começa a roer minhas unhas, e as pessoas ainda me perguntam:

- Moço como faço para ir pra Paraíso?

Eu ponho à termo minha epifania de lágrimas, suor, sacolas prestes a ruir, garotas, garotos, senhoras, o tempo a roer nossos olhos de acrílico, respondo:

- Não sei, vou para Sé.

A Sé dos anjos caídos, do cheiro de mijo que não chega no Paraíso, da Catedral esquecida, das chagas, dos pontos, putas, pontes e viadutos; não me pergunte mais do Paraíso, que dele não sei

- Vou para Sé,

esperá-la com os dedos em petição de miséria, fazendo o caminho oposto que ela fez; não me seguiu e foi pra Paraíso. Esqueceu que dia era hoje, esqueceu de pintar as unhas, exagerar no blush e no batom.

- Esqueceu?

- Esqueci.

E dei para pisar nas urtigas, nos lírios, morder as rosas, as margaridas as violetas desistiram de nascer, enfiei plantinhas azuis no nariz para não sentir o cheiro da Sé sem você, para não lembrar que você esqueceu,

- Esqueci.

foi parar no Paraíso com os risos tardios, o cansaço do mundo todo, as mães inchadas, o jornal de ontem e as unhas por pintar.

- Esqueci.

Eu deitado olhando as estrelas, rendido, rezando, pensando na vida distante de tudo, sobretudo me convencendo de que minhas entranhas estão fadadas pela vacina, pelo destino, pelo devir, ao sucesso que não saberei comemorar.

- Esqueci.

Deixo o tempo roer de mim o que restou, o rosto na fotografia em preto e branco, o vou te amar por toda minha vida no resto de gesso do meu braço esquerdo, sua letra, caneta rosa.

Perco-me nas vozes angelicais dos pastores da Sé, até que alguém me pergunta se estamos longe da Paraíso e eu engasgo com meu choro.

domingo, 6 de junho de 2010

Delírios Vertigens e Outras Realidades - PRONTO

Amigos e amigas,

é com este orgulho amador que informo: MEU PRIMEIRO LIVRO ESTÁ PRONTO

falta arranjar editora.

Estou obviamente feliz, orgulhoso, pois achei que nunca conseguiria este feito,

falta arranjar editora.

Mas ainda não posso comemorar muito,

falta arranjar editora.

Um abraço.
R.B.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Solidão I

Na minha solidão
eu sou você.

Se algum dia você ficar solitária,
poderá ser outra pessoa
se quiser.

Essa outra pessoa, em nossa solidão,
será todo mundo,
erguerá o copo e
fará um brinde
para ninguém.

01.06.2010.
R.B.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Esperança

De mim, ninguém espera nada.
Essa coragem
que tinge minha íris de castanho
não serve para nada.

No fundo dessa íris
há uma alma parecida com
uma pérola,
que apesar da vontade
de lutar,
diz:
tenho medo,
tenho medo.

E esse medo há de transformar
esta pérola numa
uva passa,
que as pessoas vão pegar,
mastigar e dizer:
esperava que fosse melhor.

Num sonho, 31 de maio de 2010.
R.B.