domingo, 21 de março de 2010

O novo espaço de Raimundo Carrero

Navegando por outras bandas, encontrei o site de um escritor que muito me agrada completamente reformulado.
O novo site de Raimundo Carrero é um poço de informação para escritores ou por quem quer se enveredar no mundo da literatura.

Vejam essa passagem no campo de entrevistas do site:

“Você faz oficinas, está formando novas gerações de escritores. Como você os avalia? Você acha que escrevem por escrever ou têm outra visão?
Quando começa o curso eu digo logo: “Se quer passar por aqui para arrumar emprego, desista. Isso não é um curso de corte e costura”. Possivelmente vai sair sem emprego. É um curso de desemprego. Não sou o Serra nem o Lula para prometer emprego. Ofereço desemprego... Mas é curioso, porque tenho alunos há cinco, seis anos... Eles vão ficando lá, gostam... E eu adoro porque eles estão pagando, também...”


Além disso há um campo chamado Raimundo.BLOG onde há debates interessantíssimos a respeito de criação literária e literatura. O mais bacana é que o próprio Raimundo aparece para dar seus pitacos. Muito legal mesmo. Vale a pena conferir.

http://www.raimundocarrero.com.br/index_pt.php

Abraços.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Meu Herói

Transpus a porta do quarto do meu herói depois de ter ficado quase meia hora a encará-la como se fosse um quadro impressionista. Abri-a devagar para que não rangesse e chamasse a atenção das enfermeiras que cochichavam entre risos enquanto deixavam lençóis limpos nos quartos ou carregavam cadeiras de rodas vazias pelo corredor deserto.
Lâminas de sol bronzeavam as paredes brancas pintadas de neve, clareando o ambiente inteiro. Não havia um único familiar, enfermeiro ou médico para me desejar boa tarde dentro do quarto.
Assim, solitário e com um gosto amargo entre os dentes, dei meus primeiros passos que, pela incerteza do que os aguardava, saíram vacilantes e incertos. A aderência da sola de borracha ao chão rasgava o silêncio como se fosse um pedaço de tecido.
Ansiei tanto por este momento que as palavras se perderam e fiquei estático diante da cama.
Ele estava dormindo. Que sorte a minha. Justamente quando apareço, ele está dormindo, pensei. Decidi aproveitar o tempo para pensar na melhor forma de me apresentar. Não quero soar como mais um de seus leitores ou admiradores. Quero me distinguir dos outros que entram neste quarto todos os dias.
Eu encarava os braços do meu herói; palitos enrugados vieram à minha mente. Repreendi-me por esta comparação e por pouco não pedi desculpas em voz alta.
O vento estava calado e as cortinas imóveis como cadáveres. Um silvo distante e agudo tomou conta dos meus ouvidos. Incomodado, tapei as orelhas com os dedos, mas isso só fez aumentar o barulho, dei de ombros e me aproximei da cama com as mãos rentes ao peito, segurando um boné invisível.
Contornei a cama murmurando algumas palavras. Tentei lembrar alguns de seus personagens e ensaiei minha apresentação misturando a fala inicial de vários deles. Submerso em seus enredos e cenários sentei numa poltrona de couro antiga bem debaixo da janela; seu estofado era tão que velho que parecia uma cadeira de praia. Meus joelhos ficaram a altura dos meus olhos. Observei teu rosto por alguns instantes. Seu cabelo rareava numa cabeça pontiaguda e enfeitada por marcas escuras de vários tons de marrom; seus lábios eram finos e confundiam-se com a palidez da pele enrugada pelo tempo. Não era aquele homem que estampava a contracapa dos primeiros livros do meu herói, porém também não ostentava uma figura tão cadavérica quanto pintavam os jornais.
Mirava seus olhos na esperança de que logo abrissem e, possivelmente um pouco assustado, me perguntasse com sua voz de trombone: quem é você? No entanto apenas o silêncio se movia e continuava a despejar seu veneno por meu corpo. Comecei a me coçar; via o relógio a cada cinco segundos e não tinha sucesso em roer o resto das unhas. Dei para tossir, inúmeras vezes, de diversas formas e tons. Cheguei a pigarrear com tanta força que fui obrigado a tossir mais algumas vezes. Me conformei: ao invés de trocarmos palavras, ficaríamos a tarde inteira trocando silêncios.
Você não vai acordar?
Do outro lado da cama, havia uma pequena mesa onde jaziam três flores mortas. Suas pétalas eram negras tal qual as nuvens que se aproximavam de nós. Sorri. Essas flores expressam bem o meu herói, que em todo lugar dizia que queria ter um taco de snooker pra enfiar no coração da lua, pois toda vez que a via, sentia uma tristeza danada. Concluía qualquer conversa dizendo que somos apenas calotas rolando desconjuntadas pelas ruas mal conservadas da vida.
Emocionei-me ao lembrar de suas palavras e isso só serviu para aumentar minha ansiedade. Levantei, parei diante da tevê desligada e me vi no reflexo da tela. Ouvi um gemido de dor. Corri para a beira da cama e perguntei se estava tudo bem, se precisava de algo, se queria que eu chamasse a enfermeira. Não houve resposta. Continuava exatamente como antes. Um trovão riu de mim do lado de fora do quarto.
As cortinas se arregaçaram por conta da brisa gelada que penetrou no quarto. Fechei o vidro da janela e as cortinas sossegaram, não sem antes atingirem meu rosto violentamente na volta.
Parece que vai cair o mundo, disse após um novo trovão. Enfiei a mão no bolso e desdobrei uma folha amarela de papel.
---- Eu sei que está cansado e que dorme profundamente. Mas gostaria de ir embora antes da chuva, por isso, lerei agora um pequeno texto que escrevi ontem em sua homenagem. Nem consegui dormir. Passei a noite toda revisando, conforme você ensina em seus cursos. Começa assim: Que dirão as pessoas quando...
Subitamente alguém abriu porta do quarto e um grito contido de espanto me assustou. A enfermeira fincava seus olhos azuis esbugalhados em mim, ficou branca feito as paredes do quarto.
---- Quem é você?
---- Eu vim apenas para conversar um pouco com ele, mas estava dormindo, então decidi esp...
---- O senhor é da família? – perguntou sem se mover e sem tirar as mãos da maçaneta de metal.
---- Não. Eu...
---- Se retire, por favor. Apenas familiares têm permissão para ficar aqui. – interrompeu-me pela terceira vez
---- Desculpe, mas acredito que estou em horário de visitas. Acho que posso ficar aqui até as sete. – Olhei para o relógio no meu pulso que marcava seis e quinze.
---- Senhor, este paciente não precisa mais de visitas.
---- O que você quer dizer com isso? - Perguntei segurando minha folha de papel amarela que, contra a minha vontade começou a tremer. ---- Olha, façamos o seguinte: deixe-me ao menos terminar de ler esse texto que escrevi. Depois eu saio.
A enfermeira, aparentemente irritada com minha insistência, bufou e meneou a cabeça violentamente, apertou ainda mais forte a maçaneta da porta:
---- Senhor, finalmente algum parente decidiu aparecer para reconhecer o corpo e tomar as devidas providencias, portanto, é necessário que o senhor saia... agora.
---- Me desculpe, mas não saio. – Fingi que não ouvi dizer que alguém estava do lado de fora para reconhecer o corpo. Algum engano, pensei. Minha única preocupação naquele momento era que a enfermeira com olhos de relâmpago e pele de parede sumisse de vez.
---- Vejo que serei obrigada a chamar o segurança. – Sem fechar a porta ela sumiu pelo correndo e estávamos, eu e me herói, novamente trocando silêncios.
Antes de reiniciar a leitura do meu texto percebi que o lençol azulado que cobria seu corpo não se movia. Ele não estava respirando. Uma lágrima brotou no canto dos meus olhos e meu coração se afogou. Senti que tinha um liquidificador no estomago e achei que ia vomitar aos seus pés. O ar me vinha quadrado e machucava meu peito; queria conter os lábios trêmulos, mas eles imitavam minhas mãos. Nenhum trovão riu de mim nessa hora.
---- Que dirão as pessoas quando me virem com o mundo escorrendo pelos dedos... – retomei a leitura do meu texto, engasgando aos poucos com o sal das lágrimas, com dificuldades para encontrar as palavras na folha.
Sem que eu notasse, um gigante usando terno negro e gravata combinando invadiu a sala. Pude ver o reflexo do meu rosto assustado em seus óculos tão escuros quanto sua vestimenta. Ele ergueu a mão para me agarrar. Dei um passo para trás e enfiei meu texto de qualquer jeito no bolso.
----Está bem. Já entendi. – Enxuguei os olhos e corri para fora do quarto do meu herói.
No corredor uma mulher ao me ver caminhando em sua direção levou as mãos ao peito e engoliu uma bola de susto quando passei por ela. Segui para o elevador. Prendi a respiração e franzi o cenho para que não percebesse que chorávamos o mesmo choro, pelo mesmo herói. Um homem com mãos de urso acariciava seus ombros e desferiu o olhar mais maligno que conseguia inventar.
A enfermeira, pousando suas mãos finas e ossudas no ombro da garota disse:
---- Está tudo bem. Era apenas um rapaz que se confundiu de quarto. Não vai mais voltar, fique tranqüila.
A garota não respondeu, apenas meneou a cabeça afirmativamente e entrou no quarto do meu herói aos prantos, com alarde, sem o cuidado que eu tive ao entrar e não incomodá-lo.
Na rua acendi um cigarro.
Segui sem direção, passei por casas com paredes descascadas e janelas lacradas. Os bares estavam vazios e todos encaravam a novela na televisão sem piscar os olhos. Eu era um de seus personagens caminhando a esmo pela cidade.
No alto, o céu azul aos poucos era tomado pela cortina negra da noite e nuvens cor de grafite carregadas de lágrimas iguais as minhas encobriam tudo como uma manta. Tirei o papel amarelo todo amassado do meu bolso e joguei-o numa sarjeta qualquer. Podia ver a luz da Lua atrás de uma nuvem. Despejei toda a fumaça do meu último trago em sua direção. Quem me dera ter um taco de snooker, por que eu também quando te vejo, sinto uma tristeza danada.

Frutas

Fiquei com o gosto da tua fruta na lingua. Demorei para ouvir o barulho das buzinas; não conseguia arrancar os espinhas das suas mãos da minha atenção. Gostava de andar de ônibus para imaginar o silêncio que abafava as janelas com as luzes acesas. Os vidros do carro, mesmo pela manhã, refletem apenas a escuridão do medo, do rosto.
---- Eu não sinto o mesmo, me desculpe.
De novo, o gritar das buzinas invadindo a porta do meu carro, ofuscando a lembrança do céu sem estrelas do teto do seu quarto. Debaixo do teu teto tudo é de chumbo, triste, como se o dia nunca fosse raiar. Estou com o gosto amargo da tua fruta na minha boca inteira. Queria que essa buzina alfinetasse meus tímpanos para silênciar tuas últimas palavras:
---- Não posso pedir perdão.

terça-feira, 9 de março de 2010

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Memórias da Sauna Finlandesa - Marcelo Mirisola






Amanhã, dia 23, no espaço Parlapatões (Pça. Roosevelt) terá o lançamento do novo livro do escritor Marcelo Mirisola. Vale a pena conferir.

Hoje, dia 22, terminei de reler o Memórias da Sauna Finlandesa, e digo o seguinte:

No começo estranhei, não parecia nada com o MM que eu conheci quando tava nos bons tempos do segundo colegial há cinquantanatanos atrás.

Me senti um pouco mais tranqüilo sabendo que os azulejos ainda estão lá, as musas, os porres, alguns em terceira pessoa até. Dedos dos pés foram devidamente chupados, Gessys foram cavalgadas, o Fábio Jr., Ivete Sangalo, Vinicius de Moraes e mais um monte de gente, foram, cada um à sua maneira, lembrados.

(Por sinal, estranhei a ausência do Piazzola, mas tudo bem).

No entanto referências à barbichas grisalhas, amor paternal por garotinhas e bolas de sabão imediatamente criaram um rombo na minha retina. MM trocara os quartos de empregada, azulejos (lembranças distantes) e garotinhas recheadas de alucinógenos para freqüentar as praias da Cidade Maravilhosa, carrega compras, desabafar com garçons.

MM se tornou um ser humano como eu. Um romântico!

Sensação engraçada, coisas de identificação.

Mais estranho ainda é que geralmente quando termino os livros do Marcelo Mirisola me sinto mais leve, como se um peso fosse tirado das minhas costas. Quando sento para escrever, não raro, pego na estante um de seus livros, leio, me inspiro e solto o verbo. Os dedos parecem metralhadoras em estado de graça, devidamente calibrados de inspiração. Mas esse Saunas, quando terminei (em qualquer uma das duas vezes), me deu um vazio; fiquei reflexivo e entrei emalfa encarando os chimpanzés da capa. Achei um deles bem parecido comigo.

Uma segunda identificação.

Depois de horas de reflexão, concluí que Marcelo Mirisola, que fazia muito bem às vezes de atirador de elite, tem uma nova arma, talvez a mais poderosa de todas: ele atinge os intestinos, os estômagos, a gut, como dizem os americanos. Antes, ao meu ver, havia uma troca de tiros entre o escritor e o leitor; trocavam farpas e cada um caía para seu lado. Agora, o escritor desarma o leitor que não tem opção senão se render, ficar escravo das linhas, das palavras, sentindo até compaixão e carinho pelo personagem (é mole?).

Fecho o livro com as entranhas apertadas, espremidas. Penso comigo que talvez essa sensação seja como uma ressaca, que para melhorar é preciso beber mais. Vamos lá, do começo, primeira parte, sobre os ombros dourados da felicidade...

Assim, para concluir deixo apenas uma ressalva: cuidado com esse livro, é altamente viciante. Seja pela linguagem, pela lucidez ou por simplesmente parecer que somos nós que estamos na mão do escritor.

Divirtam-se.


Novidades- Andanças

Nesse tempo em que não coloquei nada aqui, tive a sorte de ter contos meus circulando por outras vias.
Meu nome figurou para minha felicidade, dos meus amigos e parentes, na antologia organizada denominada Universo Paulistano II. O conto Mariana foi selecionado e está lá, na página 115 para meu orgulho.
Além disso, o mesmo conto - Mariana - foi está entre os concorrentes para figurar na Revista Ficções nº 19. Obtive boas reviews e parece que o pessoal gostou. Saberei se figurará na revista impressa lá pra março apenas. Mas foi uma excelente experiência.
Por fim, para fechar com chave de ouro, meu conto chamado "Acidentes" foi publicado no blog literário O Bule. Só de ter meu nome entre consagrados da literatura foi surreal. Agradeço ao pessoal que comentou e me deu força pra continuar.
Qual o próximo passo? Não sei. Pretendo continuar escrevendo; quero arriscar coisas novas e ver no que vai dar.
Um grande abraço.
R.B.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

PIVA III

Fonte: Renata D´Elia

Acabo de voltar do Hospital das Clínicas, onde visitei o poeta Roberto Piva. Está bem acomodado num quarto duplo, as enfermeiras e médicos são atenciosos, todos os exames estão sendo feitos e, neste momento, estamos tentando convencê-lo de que a comidinha sem sal do hospital não é tão ruim assim. Está mais animado e ansioso para receber a penca de livros de Pasolini e Castañeda que nos pediu. Me pediu também um bloco e uma caneta para escrever -- e esse não é o tipo de pedido que se nega a Roberto Piva, né? Devidamente providenciado.

Disse que quer ouvir "notícias curativas". Agradeço aos que estão sendo solidários para que possamos levá-las até lá.