quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Melodia - Ficções Lunares - Álvaro Cardoso Gomes

Insone e aterrado pelo furor da noite branca, ele se dobrou ao vezo de uma voz que lhe sussurrou, sibilina: se ousares lutar contra a tirania das palavras sedentárias, então poderás adentrar a verde e fresca espessa, onde o ácido e o cintilante perfume das laranjas te perfumará o hálito, onde tu te irmanarás aos irmãos hirsutos e plumados e onde tu serás inebriado pelo débil e laborioso canto das abelhas, que te adoçará o sangue e embriagará de melodias o oco do teu coração vazio.



sábado, 7 de novembro de 2009

Trecho - Sombras

Logo pela manhã não me sentia muito bem; ontem quando o sol se despediu não me sentia nada melhor. Algo ardia dentro de mim, podia ser o começo de uma gripe. Para piorar minha condição fiquei o dia inteiro de pé no ponto de ônibus,sem que nenhum aparecesse, isso apenas abrandou meu cansaço. Tudo o que eu mais queria era deitar e dormir.

Quando desci do taxi improvisado, um pequeno prédio desafiava as alturas com seus poucos andares e, ao mesmo tempo, tocava o lamaçal que um dia fora um jardim diante da recepção. Não conseguia distinguir muito bem as figuras à minha frente, mas entre a realidade e o bloco de concreto, algumas crianças passaram voando.

Não imaginava que adiariam o congresso para o dia seguinte, por isso tencionava chegar, ler meu discurso e ir embora; não pretendia ficar mais que seis horas na cidade: mas era preciso mudar os planos, precisava descansar e ficar num desses quartos de hotel é mais seguro do que dormir na rua ou num albergue.

Meus passos cruzaram a esmo a porta de entrada e chegaram ao que se diria fazia às vezes de recepção. A atendente, muito atenciosa, perguntou o que eu vinha achando da cidade. É linda. Foi tudo que consegui inventar na hora. Ela sorriu e desviou o olhar para ver o que o filho estava fazendo escondido debaixo do balcão. Assinei os papeis e, carregando minhas únicas peças de roupa no corpo, subi para o segundo andar.

A imagem de uma cama toda feita de tubos de metal e um colchão fino como uma folha de papel saltaram diante dos meus olhos. Minha coluna reclamou com um estalo premonitório.

A porta do quarto estava aberta. Entrei e fechei-a sem trancar. Deitei na cama que se apresentou muito mais confortável do que eu imaginei. Observei o céu pela janela que já estava aberta. O céu roxo era maquiado por nuvens alaranjadas. Gosto do pôr-do-sol alaranjado, me lembra uma Petersburgo que não conheci senão dentro de mim mesmo. As luzes da rua se acenderam e tudo se fez noite num único instante. Certamente os prédios começaram a luzir aqui e ali, as esquinas, as lojas e os restaurantes perdiam seu ar lúgubre.Toda a cidade se transformou diante de mim, ao meu redor e não pude deixar de rir. Como um raio de luz pode mudar tudo, simplesmente tudo!

R.B.

06.11.09

sábado, 31 de outubro de 2009

Mauricio de Almeida

e sobre seus próprios pés de peito esfolado ele se ergueria, estendendo os braços com o esforço de um Golias em dúvidas para encarar os olhos de escárnio e as bocas aflitas daqueles dois que murmurariam a estranheza de vê-lo desconfortável debaixo de tantos pés. E ainda que sentisse o peso de tudo e a boca cheia de ódio, fincava os dentes nos lábios para aos poucos se afogar também no sangue que lhe descia até as amídalas, deixando um gosto amargo de ferrugem, pois pouco podia fazer enquanto todos estivessem enfiados calmamente em suas monotonias.
E nem mesmo um
- seus imbecis
tiraria a mãe de sua confissão aos prantos sobre a eterna incapacidade de mudar, nem mesmo um
- seus putos imbecis
alteraria sequer uma vírgula do monólogo que escorria junto à torneira...

Maurício de Almeida, Beijando Dentes. Ed. Record.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Lavoura Arcaica - Raduan Nassar

"Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo;"

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O Circo

O manto de luz deixa o picadeiro
banhado pelo lábio ardido do vento,
enquanto alguns distintos palhaços,
varrem o resto dos seus pedaços.

Se a flor ainda estiver viva
que respire o resto de alento,
e que a vista não confunda
qualquer silêncio com assentimento.

Um dia o leão se cansa de rugir
e seus colegas cantam o mesmo tom.
Um dia a barba da mulher recusa-se a surgir
e os aplausos não emitem algum som.

Hora de recolher a lona por mãos feitas de sombra
apagar a chama no peito ardido do homem-bomba.
Pois no fim sobram sempre os mesmos palhaços
varrendo o resto dos meus pedaços.

Ricardo Bruch
De ponta cabeça no trapézio, 22 de outubro de 2009

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Goethe e a criação

Goethe dizia que toda busca envolve vários erros. Quem não tem coragem de errar não dá um passo novo e prefere trilhar caminhos que já foram trilhados, citando e analisando o que já foi dito antes.

É preciso livrar-se do compromisso com o êxito para poder criar. O êxito, como objetivo, é castrador da criatividade e pode até significar concessão à mediocridade.

sábado, 17 de outubro de 2009

Árvore de Natal - Trecho

Eis um trecho de um conto de minha autoria denominado Árvore de Natal:


Árvore de Natal
Para M.B.F

Eu queria sussurrar no teu ouvido que essa cidade é uma árvore de natal gigante, que os semáforos são bolas que a enfeitam, que os postes de luz circundam seu corpo e reluzem pelos quatro cantos dos seus olhos. As pessoas, os carros, as almas em revelia são atavios pendurados nos enormes galhos de concreto. Almas aladas se dependuram no topo de arranha-céus ou se fincam na base, espreguiçados nas calçadas, mas não importa onde estão, todos, sem exceção, dançam sapateando pelas bordas do seu limite, se aventuram na boca do abismo, pulam das suas mãos para sua cabeça, pras suas entranhas, em busca algo que não se define nem se identifica.
R.B.
Não concluído, ainda.