sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Manoel de Barros II

Nuvens me cruzam de arribação.
Tenho uma dor de concha extraviada.
Uma dor de pedaços que não voltam.
Eu sou muitas pessoas destroçadas.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Manoel de Barros

Não gosto das palavras fatigadas de informar.
Dou mais respeito às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões
Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença
Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior que o mundo
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos como as boas moscas
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A razão do meu silêncio - Ricardo Bruch


- Oi,

Liguei não sei porquê, não pergunte que de tanto fazer essa pergunta, virei eu mesmo a indagação, agora sou o

- Porquê

a andar pelas ruas estranhando as pessoas que não se movem mais como antigamente, as luzes não se acendem nem de noite, as janelas não se abrem. As coisas perderam a significado, e pela ausência de sentido, os pássaros deram para voar ao redor dos postes igual aos cães ao redor das caldas, igual aos urubus sobre nossas cabeças.

Tudo estagnou; vejo a água que não escorre colada ao corpo da calçada, não faz barulho, não dá vida, não foge dos becos dos olhos.

Só liguei para dizer que agora sou só silêncio e por isso não consigo te escrever. Os livros, todos eles, estão com as páginas em branco. À noite vejo as letras em marcha fúnebre - pressentiram a mudez da minha caneta -, passando por debaixo da porta para se perder no corredor, nos vãos dos armários, nos ralos do banheiro.

- Não estou louco.

Porém como posso escrever se as letras são silêncio, e as poucas que não me abandonaram são da mais triste estirpe, daquelas que fazem brotar soluços nos finais das cartas que sequer chegam às mãos do carteiro.

Se juntar tudo que me sobrou consigo formar uma frase

- Eu sou silêncio

e o médico confirmará isso quando encostar o estetoscópio no meu peito

- Não ouço nada aqui dentro.

- É porque este espaço faz tempo que está vago, doutor.

Fique sossegada que não disse que foi você quem o abandonou ao pegar suas roupas, seus retratos – não precisava ter deixado a moldura -, os discos. Deixou-me apenas com os livros

(- Não devia tê-los deixado. Não devia),

fique sossegada, nem toquei no seu nome, para não despertar a curiosidade dos vizinhos, que procuram uma réstia de vida colando os ouvidos nas paredes. Nem mencionei que foi semana passada que saiu de vez, para não atiçar a caneta das autoridades, ansiosas para preencher nome, data, idade, ocorrido.

- Diga o que aconteceu.

- As letras me fugiram, senhor.

- E fugiram por onde?

- Pelos meus olhos, senhor.

Não tenho forças para me incomodar com o estalo surdo do relógio que parou o tempo, a idade, o rio que virou uma grande poça de nada. A lágrima virou pele.

- O teu amor é uma montanha.

- Que montanha?

- Aquela atrás das nuvens.

- Que nuvens, amor?

- Essas na ponta dos teus olhos.

Não faz idéia como é doloroso lembrar dessas coisas. A lembrança tem um rosto incerto de fotografia antiga, os fato se alteram, como se brincassem de polícia e ladrão. Ontem mesmo me lembrei de quando fui parido pela terra. Fui forte e não chorei. Hoje, no entanto, me lembrei diferente, nasci num barracão, chorei a fome de um peito murcho, a falta do leite azedo cujo gosto ainda sinto na boca. Sabe-se lá como nascerei amanhã. Quem garante que o próprio amanhã não se confundirá e nascerá ontem, para nunca mais se encontrar, para embotar no tempo o vazio, e deixá-lo sozinho, no chão, a repetir meu mantra baixinho

- Eu sou silêncio.



segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Vidas - Arthur Rimbaud

II

Sou um inventor cujos méritos diferem de todos os que me precederam; de fato, um músico, que encontrou algo assim como a clave do amor. No momento, fidalgo de campo estéril e céu austero, procuro comover-me com a recordação da infância mendicante, o aprendizado ou a chegada canhestra, as polêmicas, as cinco ou seis vezes em que me enviuvei, e de certas farras em que minha cabeça forte me impedia de chegar ao diapasão dos companheiros. Não lamento minha antiga parte da alegria divina: o ar sóbrio deste campo estéril alimento bem ativamente meu atroz ceticismo. Mas como tal ceticismo não pode agora ser usado, e como, além disso, me dediquei a um novo desconcerto, - espero tornar-me um louco muito mau.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Trecho de Os Subterrâneos - Jack Kerouac


- "Mas eu estou só pensando nos problemas práticos." - "É, mas se eu dissesse só 'pode ser' eu garanto que - aaaah tudo bem", me beijando - o dia cinzento, a lâmpada vermelha acesa, eu nunca tinha ouvido uma história assim de alguém como ela só dos grandes homens que eu conheci na juventude, grandes heróis americanos que eram amigões meus, com que eu me meti em aventuras e fui parar na cadeia e conheci em manhãs esfarrapadas, os garotos batiam no meio-fio vendo símbolos na sarjeta transbordante, os Rimbauds e Verlaines da América em Times Square, garotos - nenhuma menina jamais me havia comovido com uma história de sofrimento espiritual a alma dela transparecendo tão lindamente radiante como um anjo perambulando no inferno e o inferno eram as mesmas ruas que eu perambulava procurando, procurando alguém como ela sem nunca imaginar a escuridão e o mistério e eventualidade de nosso encontro na eternidade, a imensidão do resto dela agora como um cartaz pregado numa cerca de madeira nos terrenos baldios de lixo, louco, na chuva..."

domingo, 28 de novembro de 2010

Enquanto eu espero - Ricardo Bruch

Não consigo colocar as coisas no papel, o lápis pesa toneladas entre meus dedos e sou obrigado a deixar que caia ruidosamente no chão, talvez acordando os vizinhos do andar de baixo, que a essa hora estão de costas um para o outro, com os pés para fora dos cobertores e as mãos escondidas debaixo do travesseiro. Tento ao menos terminar este caderno, restam poucas folhas, há tantas palavras para preenchê-las, mas nada me vem à mente; as palavras não me seduzem mais, não há nada em mim que anseie por falar de um rapaz caminhando sob as luzes da cidade, com sua calça jeans surrada, carregando um exemplar de On the Road como se fosse sua salvação, com Chet Baker sussurrando frases no seu fone de ouvido, rezando por garotas e suas calças negras, justas, pressionando as coxas, denunciando a forma das calcinhas para o deleite dos seus olhos, acelerando seu coração, e Miles Davis se preparando para dizer, do something kid, que essa gata vai ficar louca quando você falar das viagens que – ainda não – fez, dos bares que visitou, da estrada que não existe, das ruas difusas que minha imaginação criaria com analogias distantes, distantes demais.

- Do something kid.

E as garotas passam diante dele, possantes como trens, fugido de todos garotos, se vão olhando para o chão cheio de pés, pisam no ritmo do jazz,

que guia meus dedos,

mas ela não compreende, e se distancia de mim, pois está sozinha e em seu peito toca um trecho triste da sinfonia número 4 de Brahms; está com saudade da mãe, por algum motivo que eu não sei e não tenho coragem de saber.

Assim eu me distancio do meu universo e as pessoas somem feito fumaça de cigarro antes de tocas as hélices do ventilador de teto; me cansei das palavras, do esforço que tenho que fazer para dizer que gosto mesmo é do silêncio. Até quando? Até quando terei vontade de ser a vírgula apenas, o ponto final de um sorriso e um final feliz de uma história que não fui capaz de contar, por causa desses ruídos que me incomodam, por ter palavras demais, ocupando espaço como caixas recheadas de coisas que nunca quis.

- Meu mestre,

- Meu amado mestre,

nem tua pena poderá me salvar agora.

Deste tutum tutum do meu peito, são as pausas que me emocionam, é o silêncio entre e o tic e o tac que me faz arrepiar e me dá vontade de pegar o lápis, que pesa uma tonelada e logo caí no chão, fazendo barulho, acabando com a minha paz, acordando a vizinha do apartamento de baixo, que cobre os pés, e se pergunta por que é que ele não me abraça mais, não me toca mais, por que é que seus lábios não dormem colados no meu pescoço, por que... e o silêncio volta a tomar conta do quarto, ela dorme, sem saber que eu parei e chorei, por sei lá que razão, como se as lágrimas deixassem o tutum tutum mais calmo e o tic tac mais espaçoso para que eu pudesse aproveitar e colocar todo meu silêncio no papel e, finalmente, te esperar tranquilo no sofá da sala para dormirmos colados um no outro, e eu possa repousar meus lábios nos teu pescoço e esquentar meus pés nas batatas das suas pernas.

domingo, 31 de outubro de 2010

Delírios, Vertigens e Outras Realidades



Como vão amigos? Queria ter escrito antes. Não consegui,
culpa do trânsito,
da correria,
da tristeza,
Não, tristeza, não.
Nunca.
Quando nos encontrarmos vocês vão ver que estou mais magro; acreditam que ando correndo tanto que só percebi ontem que não tem mais floricultura, nem mercado ou o Seu Messias na esquina da rua, sentado na cadeira de praia, dizendo:
- Vai com calma.
Demorei para descobrir que o Seu Messias virou um eco. Se me perguntarem, não saberei dizer o que aconteceu. Direi que sumiu desde não sei quando, muito embora, eu acho que o ouço dizendo
- Vai com calma,
lá no fundo da minha cabeça ou do outro lado do espelho, pela manhã ou logo quando eu volto do trabalho.
Não sei.
Eu e ela estamos firmes. A casa ficou linda, espero que consigam visitar-nos um dia. Nos vemos pouco, mas enquanto ela dorme fico encarando seus os olhos, a testa, esperando a boca se mover, entregar algum segredo, alguma angústia que guarda escondida no peito.
(Não me diga que não guarda.
Não diga.
Eu sei.)
Não diz nada.
Ainda tenho problemas para dormir. Não funcionou aquele remédio que me indicaram, uma pena. Gostaria de conseguir dormir ao lado dela.
Dei para ter a impressão que da nossa janela alguém
(talvez Seu Messias)
diz vai com calma;
mas pode ser o vento, os galhos das árvores, os sonhos dela tentando fugir.
Um dia desses, na época em que Seu Messias sabia a hora em que chegávamos e saíamos, ela me pediu para escrever algo sobre ela,
- Pra ficarmos sempre juntos
ou
- Pra que esteja sempre na sua cabeça.
- Você sempre está na minha cabeça.
Ela sorriu sem acreditar, me deu as costas para dormir.
Acho que desconfia que a encaro madrugada a dentro
- O que é que você está olhando?
Então eu levantei, peguei meu caderno e escrevi as nuvens tiradas de músicas de criança, com gosto de algodão doce; escrevi lembranças gasosas de refrigerante no parque, estrelas em forma de coração, restaurantes com mesas suspensas no ar.
Ela não gostou.
- Que lindo
Colocou o papel não sei onde, perto das jóias antigas, das blusas que nunca usou,
- Fico feliz que tenha gostado.
Isso foi só uma vez. Uma única vez.
E vocês amigos? Como estão?
Queria ter mais coisas para contar, falar dos meus planos. A correria é tanta, que nem percebi que o Seu Messias...

Não sei se devo contar de como eu planejo fugir.
Dos meus sonhos,
fugir do que venho armando,
fugir.
Vai com calma.
Deixarei os cachorros com a minha mãe, os porta-retratos; do Chico vou levar o ao vivo para dançar com ela; levarei também um Drummond, uns suspiros, uns sonhos,
Tristezas, não, nunca,
Um chinelo de dedo, talvez.
Vai ser o que Deus quiser
(Se é que já não é).
Uma cigana me parou na Sé,
pediu uns trocados, um pouco de comida e disse que eu era um caso grave, desses que não tem solução, sem cura, sem pneumotórax, banho de sal grosso, novenas, promessas, romarias, livros de auto-ajuda, passes, hipnoses, nada. Nem um
Vai com calma
me ajudaria.
Nem a poesia.
Poesia, é?
Então ela deixou de falar para cair, estrebuchar, e rolou, e virou uma pomba, bicou o chão, futucou o lixo em pulinhos breves, me encarou com seus olhos vermelhos, querendo dizer
Nem a poesia,
E não dizendo. Pisou nas cartas de amor perdidas, misturadas com as guimbas de cigarro e uma lágrima que eu chorei sem querer e quase a atingiu.
Hoje eu tenho certeza que eu sou um caso grave, de aparecer nas capas de revista, de servir de paradigma, sofro de
Delírios
Vertigens,
Vivo em outras realidades,
Rodeado de pombas curandeiras, homens voadores, lembranças sentadas em cadeira de praia dizendo:
Vai com calma.
Amigos,
Tenho vontade de virar pescador ou lavrador, ficar enrugado de tanto Sol, de ter dois filhos, um papagaio, uma cachorra chamada Baleia e não saber ou sentir saudades de nada.
Tristeza, não, nunca.
Não sentir saudades da pureza que hoje não reconheceria se topasse com ela na fila do pão ou do cinema.
Não sentir nada, que bom seria.
Definitivamente levarei um chinelo de dedo.
Meus amigos, quis contar as novidades, porém fiquei apenas nos
Delírios,
Vertigens,
Outras realidades,
Coisas sem sentido, sonhos que correm em vias de duas mãos.
Contudo, saibam que guardo um tiquinho de fé, de esperança, de que nenhum caso é grave como dizem os pássaros da Sé e que tudo será
Como Deus quiser,
(Se é que já não é,)
Espero que me reconheçam caso dêem comigo na rua, no ônibus e espero que me falem das boas novas, porque da minha parte, por enquanto, tenho apenas meus
Delírios,
Vertigens e
Outras realidades.
E seja o que Deus quiser,
Se é que já não é.

Um beijo.
R.B.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Fim do Mundo - R.B.

- Pera aí, não se mexe,tem uma pétala de rosa na tua boca,
não me pergunte de onde ela saiu, mas estava aí, eu juro.
- Pronto.
Saiu? Como ela foi parar aí?
Queria te mostrar, era uma pétala linda, deve ter caído de alguma árvore e foi parar bem no canto da sua boca, perto daquela pintinha quase imperceptível que você tem em cima do lábio, aquela que eu gosto de beijar quando você se irrita,
eu teimo em buscar pétalas de rosa na sua boca.
Eu juro que tinha. Era uma pétala rosa,
linda.
- Eu juro que tinha,
Você pode não acreditar, mas às vezes eu vejo estrelas no fundo dos teus olhos, pode ser reflexo das que estão no céu, pode ser qualquer coisa, mas eu me perco e começo a imaginar coisas; você sabe, eu gosto de viajar, sem precisar de malas, gasolina, parada no posto para ver se está tudo bem, comprar chiclete, amendoim, água para a estrada. Plano de vôo, passagens.
Não fecha os olhos,
que eu quero me...,
Vamos até o fim do mundo.
- Opa. Mais uma.
Deve estar chovendo rosas, que é a segunda pétala que aparece no seu rosto.
Lá no fim do mundo, para onde vamos, isso não vai acontecer, prometo.
Você é linda.
Viajando,
nossos filhos serão lindos. Eu com certeza viajarei nos olhos deles, e verei estrelas cadentes, via lácteas, planetas, pontes, pedras, pés minúsculos de bebezinhos saudáveis; mas só com você eu vou até o fim do mundo, é perigoso para eles viajar por esse céu sem cinto de segurança, sem preocupação com as estações de rádio, que vão enlouquecer e de repente deixar-nos à sós para rir da vida, invejar os animais livres, os pássaros voando, beijando as nuvens; planejaremos nossa casa, os quartos, a cor do armário da cozinha, a cor das cadeiras, da nossa rede,
lá no sossego do fim do mundo.
- Vai chover.
Eu sei.
Só não me peça para ir embora.
Esse campo é mais aconchegante que minha cama (você sabe); ando me estranhando com meu criado mudo, com o rádio-relógio que herdei da minha vó e toda manhã toca a rádio errada. Toda manhã a mulher do tempo erra, mesmo quando diz
- Hoje teremos um bom dia.
Ela erra.
Todo mundo erra, você me diz, vez ou outra, para me acalmar, me tocando com as suas mãos quentes, calmas, cheirando estrada e céu azul.
Suas mãos têm cheiro de céu azul.
Eu insisto nessa coisa de chuva.
Não me diga que quer ir embora.
É cedo.
Daqui a pouco vai surgir a Lua, bem melhor vê-la daqui do que pela televisão, onde ela fica sem graça, sem razão, que nem eu, a buscar nas suas fotos pétalas de rosas no teu rosto e a pintinha tão linda que você tem no canto do lábio e eu gosto de beijar sem que você saiba,
- No que está pensando?
- Não sei,
Não sei.
Hoje teremos um dia lindo.
Às vezes a gente erra.
Pode acontecer qualquer coisa desde que estejamos juntos, eu, você, as pétalas da minha imaginação, a minha viagem à Lua dos nossos sonhos, nossos filhos.
Hoje teremos um dia lindo.
Não sei.
(Preciso dormir),
É cedo. (É tarde)
Hora de fazer as malas.
Não tenho mais idade para gravar seu nome com a caneta no meu braço, pintar campos cujo verde fica embaçado na minha cabeça, chuva de pétalas e estrelas cadentes, músicas de fundo, taças de vinho, jogos de prato,
Já é tarde, hora de fazer as malas.
- Que foi isso?
De repente as luzes apagaram. Senti um medo danado do dia acabar comigo acordado, sabe,
- Não se mexe.
- O que foi?
- Fecha os olhos.
Por favor.
Vamos viajar até o fim do mundo.
Sabe, um dia eles vão crescer, vão me achar estranho, barrigudo, maluco, meus acordes fora de tom, meus dedos desajeitados procurando alguma coisa no seu rosto,
- Não se mexe.
- O que foi?
- Achei que o dia tinha acabado sem que eu soubesse.
Hora de fazer as malas.
Podemos ir de barco até o fim do mundo; lá eu vou acreditar quando a mulher do rádio disser:
- Hoje teremos um dia lindo,
lá não vou me preocupar com os dias acabando enquanto eu ainda estou acordado, e minha vida passando por mim, por ruas de terra, bezerros, pipas, praças com bicicletas caídas e borboletas pousando no seu dedo, nós rodopiando até as estrelas, pegando carona numa brisa, numa pétala de rosa, dessas que pousam no teu rosto,
- Não se mexe,
senão as estrelas vão embora.
- Não se mexe que eu vou pegar as malas,
nós vamos viajar, não vou repetir, porque se o dia ouve, ele acaba e eu posso mudar de idéia, posso acreditar, por cansaço, por medo, por não ter escolha, na mulher do rádio
- Hoje teremos um dia lindo,
Você é linda, digo enquanto busca aquela pintinha no canto da sua boca, antes que o dia acabe, antes que o criado-mudo, o rádio, as malas, nossos filhos dormindo, as estrelas fosforescentes brilhando no teto do quarto.
Te garanto que lá não teremos pressa, nem medo, nem dor, nem terão hospitais, salas de espera, entrevistas de emprego, dúvidas, trabalho para levar para casa.
É tarde,
Vamos viajar até o fim do fundo.
Pode ser hoje? Vamos fazer as malas, brincar entre as estrelas, as pétalas no seu rosto, o campo nossa cama.
Hoje, que teremos um dia lindo.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

NOVIDADES NO SUBSOLO!!!!

Amigos,

o pessoal do Bule (link ao lado), tem uma proposta muito interessante que é compartilhar as obras que mais mexeram com o sujeito e espalhar por aí, para que as pessoas conheçam, se interessem por coisas novas.

Para minha surpresa, fui convidado para participar desta mui nobre empreitada. Assim, meus pitacos e de mais um monte de gente inteligente estão no link abaixo. CONFIRAM:
http://o-bule.blogspot.com/p/corraatrasdesseslivros.html

Só para avisar também, o pessoal do blog Letras Et Cetera (que vem me ajudando a divulgar um pouco do meu trabalho) publicou um conto meu que acho que a galera que frequenta o blog já conhece, mas não custa nada conferir de novo, right?

Eis o link:
http://nanquin.blogspot.com/2010/09/explosoes-ricardo-bruch.html

Até mais, com novidades.

R.B.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Acalanto de John Talbot - Manuel Bandeira

Dorme, meu filhinho,
Dorme sossegado,
Dorme, que a teu lado
Cantarei baixinho.
O dia não tarda...
Vai amanhecer:
Como é frio o ar!
O anjinho da guarda
Que o Senhor te deu,
Pode adormecer,
Pode descansar,
Que te guardo eu.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Jimmy 2006 - 2010


Um dia, eu sei que vou parar de chorar e vai parar de doer. Até, continuarei com saudades.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

EXTRA! EXTRA! EXTRA!

Amigos e amigas,

é com muito orgulho que informo que meu conto ESTAÇÃO PARAÍSO foi publicado pelo blog CAOS E LETRAS. Link abaixo!
Não deixem de conferir.

Um abraço.
R.B.

http://www.caoseletras.com/2010/08/estacao-paraiso.html

domingo, 4 de julho de 2010

Paixão

"Para meu irmão o ensinamento era claro. A cegueira é destina de quem se deixa tomar de assalto pela paixão: deixamos de ver quem amamos. Em vez disso, o apaixonado fita o abismo de si mesmo.
- Mulheres são como ilhas: sempre longe mas ofuscando todo mar em redor"

(COUTO, Mia. Antes de nascer o mundo. Ed. Cia das Letras. p.56)

sábado, 3 de julho de 2010

LUTO EM DOBRO - MORRE ROBERTO PIVA


Não sei nem o que dizer...

Estou de luto.

Fique com Deus.

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/761522-poeta-roberto-piva-morre-em-sao-paulo.shtml

segunda-feira, 28 de junho de 2010

ALBERTO GUZIK - RIP




Na data de 26 de junho transato, morreu uma pessoa pela qual eu nutria um enorme carinho. Se não fosse meu egoísmo e minha vontade que as coisas não tivessem sido assim, eu até assumiria, assim, na cara dura, que ele está bem, bem, bem melhor que todos nós agora.

É com muito carinho, saudade e respeito, que trago à baila esse texto que fiz para você Guzik.

Fique com Deus.

Um abraço.

A ULTIMA DANÇA

Estávamos eu e minha mulher em plena alta madrugada como duas crianças, sorridentes e suados, abraçados em concha – exatamente como determina o regulamento –, um sentindo a respiração do outro, nossos cheiros se misturavam. A festa sempre começava quando ela voltava do trabalho. Eu largava o que eu estava fazendo, preparava o banho e a janta. Ela cuidava do vinho, da camisola e da cama, principalmente da cama.
Sentia pela respiração longa e tranqüila que ela começava a dormir, mas eu não conseguia acompanhá-la. Havia alguma coisa na minha cabeça, algo que eu não sabia se devia ou não fazer: um dilema.
Semana que vem, terei compromissos inadiáveis, coisas oficiais envolvendo meu salário, meu trabalho, complete bullshit e perda de tempo, pensei. Assim, usando o melhor critério que há para escolha de algo – a eliminação – decidi que me sobrava apenas amanhã para me despedir de uma amiga. Uma grande amiga.
- Acho que amanhã vou me despedir da Velha – disse.
- Hein? – perguntou minha mulher.
- A Velha. Lá na Roosevelt. Tenho que ir amanhã, semana que vem vai ser impossível, palestras, trabalhos; tem que ser amanhã.
- Amanhã eu não posso ir – respondeu meio dormindo, meio acordada – tenho reunião cedo na sexta – e apagou completamente. Só ouviria sua voz novamente no dia seguinte.
Tudo bem, pensei. Amanhã eu vou. Qualquer coisa eu vou sozinho; eu me dou bem o suficiente com a Velha pra visitá-la desacompanhado.
Satisfeito com a minha resolução, joguei o gato no chão, em cima do cachorro, e dormi.

Quinta-feira, 21 de maio de 2009.

- Felipe, tá a fim de ir ver a Velha hoje?
- Hoje? – perguntou a voz do outro lado da linha.
- É, porra! Eu disse hoje, não disse? Hoje, quinta.
- Você andou cheirando? Tá mais acelerado que o Road Runner (Papa-Léguas em português, mas Road Runner é mais conveniente, digamos assim...). Relax, cara. Relax. Mais tarde eu te ligo e combinamos.

Ele topou. Assim que fareja cerveja, conversa jogada fora e mesa de bar na Praça Roosevelt, ele cancela até reunião com o presidente. É um cara bacana.

Eu e o Felipe chegamos mais cedo, tomamos umas cervejas, fumamos uns cigarros, negamos umas esmolas, nada fora do comum.
Onze horas, a Roosevelt lotada, gente bebendo, fumando, rindo. O coração da cidade batia ali, naquela praça.
Gosto das noites de São Paulo. Não importa onde você está, tem movimento, gente falando e histórias pra contar e isso é o mais importante.

Eram onze e dez ou onze e quinze quando tocou o sino. Fui um dos primeiros a entrar e escolhi meticulosamente meu lugar. Assim que sentei os acontecimentos se passaram como um relâmpago e tal qual um relâmpago, um lampejo de vida, os descreverei.

Estava ansioso. Essa noite será diferente, seremos apenas a Velha e eu, pensei. O Felipe estava preocupado com um casal de lésbicas se beijando num canto, ele pensava se elas deixariam ele entrar na dança se pagasse um traguinho pra elas.

Sento na minha cadeira, inquieto. Minhas mãos suando, síndrome das pernas inquietas, Felipe bêbado, lésbicas se beijando e ele cada vez mais próximo delas, salivando.

Aplaudi fora de hora, ecos, a Velha me olha, ouço risos. Ela me encara. Naquele tempo as pessoas tinham talento; essa frase ecoa na minha cabeça como um diapasão. Neruda passa dançando à minha frente, bêbado como eu; dançamos funk juntos. A Velha não gosta, reclama e bebe da nossa garrafa. Cigarros importados enfeitam a mesa e nossas mãos.
Entra um moleque estranho, tatuagem inidentificável no braço, rouba a cena. “Maldito, como ousa!” penso com os meu botões, sentindo falta da Velha. O rapaz é bom, até que gosto dele e olha que não sou de gostar das pessoas, muito pelo contrário. Turbilhões e muitas coisas se passando pela minha cabeça. Posso dormir aqui; posso morar aqui e virar uma espécie de negociador. Se depender de mim a Velha nunca vai se sentir sozinha. Já trouxe umas quinquishmintilhacacan pessoas pra conhecê-la. Todos a adoram. Ela gosta, eu sei que ela gosta, conheço seu sorriso.
Ela volta a me encarar, come uma banana com dignidade e respeito inimitáveis, exatamente como fazia no seu tempo de star. Eu estou zonzo, com o coração se remexendo fora do ritmo da dança. Desligam meu celular. Este texto está muito estranho, alguém chama o Dr. Kafka, por favor.
Vi a Velha parir na minha frente. Chorei. Não queria ir embora, mas sabia que estava no fim. As luzes acenderam, ela não estava mais lá. Olhei o cenário ao meu redor, lembro da primeira vez que pisei ali. A primeira vez.
A primeira vez que vi a Velha me choquei comigo mesmo, com o Universo, nem um pouco a contragosto; na segunda ri, entendi-a, nos entendemos. Naquela noite escureceu mais do que o normal; não me incomodei. Na terceira, agora sim a contragosto, chorei.
Não pude dizer adeus à Velha da forma que queria. Embora a noite tivesse sido para nós dois - eu e ela, num reservado, no escuro, compartilhando Vodca barata -, ainda queria dizer algumas coisas antes de ir embora, mas não pude. Os ônibus depois da meia-noite param de circular pelas ruas e, da casa da Velha para a minha são duas horas – se eu conseguir pegar o último ônibus, é claro - ou noventa reais de taxi – eu sei por experiência própria. Então parti com palavras perdidas nos lábios e coração vazio como o copo que ela deixou em cima da mesa.
Cheguei em casa abatido e descabelado. Parecia um acidente de carro. Minha mulher me abraçou. Sabia o que tudo aquilo queria dizer pra mim. Um fim provavelmente irremediável. Teria que guardar minha máquina de escrever e colocar as cartas que eu havia escrito prum escritor que tenho como um amigo, Hackmuth, na gaveta. Sem a Velha por perto, tudo perde um pouco o sentido e o matiz.
Na cama, minha mulher colocou minha cabeça em seu colo. Cafunés intermináveis e apenas uma única voz conversava comigo: “Naquele tempo as pessoas tinham talento...”, “naquele tempo, as pessoas tinham respeito”, “naquele tempo...”.
- Ela vai voltar. Eu sei que vai. Sua amiga vai voltar. – dizia minha mulher.
As palavras dela me acalmaram pela simples razão de sempre estar certa.
Minha mulher sabe das coisas.

Dedico essas linhas tortas ao Marcelo Mirisola, Alberto Guzik e Chico Ribas.

BRAZUL - Ricardo Bruch


Brasil (sil sil sil), é o nome do soldado que queima a brasa no peito, azul, beija a boca do fuzil, azul, (sil sil sil), do menino, da menina, Brasil teus peitos estão à mostra, tuas veias, tuas cicatrizes, estrias nos asfalto de madrugada, um grito enlatado, entalado na garganta o dia inteiro, Brasil, que hoje é dia de jogo, todo dia é dia de jogo, todo dia, dia de fogo no corpo, nos telhados, nas casas do soldado, das meninas, dos meninos, lambendo as tetas das lombadas, beijando o bico do fuzil, queimando o coração azul, o mamilo azul, Brasil, esconda tuas cicatrizes, por que hoje é dia de jogo, atirei sim, não nego, ele reagiu, Brasil, o menino, a menina, reaja, Brasil, que teu azul não é anil, que ninguém dorme tranquilo no teu colo, que teu leite é sujo, muito embora azul.

Por que teus olhos são vermelhos?

Brasil não dorme, tem lembrança, não tem memória, tem nos dedos um quê de euforia que acaricia o clitóris do gatilho, do fuzil, azul, meninos, meninas azuis, escondidos nas tuas ancas, debaixo da madrugada, das ranhuras do cimento, escondidos sim que eu vi, Brasil, é o nome do menino caído, segurando o fuzil, uniforme azul, Brasil, é o nome da menina, perdida entre as tuas ruas, entre estreitas veias, entre o vão dos teus dentes há melancolia, azul, que tristeza é essa que ronda os teus quatro cantos, da carroça à cachaça, não chora, fica quieta, fica azul no dia de jogo, a chama do fogo azul, a fumaça, no meu peito Brasil.

Por que teus dedos são vermelhos?

(Sil sil sil)

O tempo corre na minha alma, calma, mãos ao alto, deita com calma, na cama de cimento do velho Brasil e teus abortos malfadados, meninos e fadas azuis, nem verdes, nem amarelos, azuis, almofadas azuis, no dia do jogo, mãos ao alto, eu corro para fugir do tempo do teu ventre Brasil, visualiza, legaliza, mobiliza Brasil, os teus fuzis na marcha da memória aberta da tua história, minha história, a história do soldado que morreu nas mãos da menina Brasil, por falta de dinheiro para uma trepada sem recheio, com gemido e sem amor, sem verde, sem amarelo, ouviu, Brasil.

Por que teus pés são vermelhos?

Corre Brasil, do céu, da mata, da árvore, das plantas, dos pássaros azuis, sil sil sil, acorda, já é tarde, sil sil sil, Brasil, que não tem fim nas linhas do trem, vem que tem, Brasil, tem começo, tem meio, tem sim, fim, Brasil de Souza, da Silva, Pontes cruzando tua espinha de metal azul, fabricada por gente sem olhos azuis, iguais aos teus, Brasil, da Nóbrega, dos Santos, dos fundos das lanchonetes onde as carnes morrem de fome, Brasil do meu sentido, dos meus pais, país de sofreguidão e ardil, fuzil escondido debaixo do travesseiro das minhas angustias.

Por que teu projétil é vermelho?

E da minha janela eu vejo teu céu, Brasil, tuas praças, coretos, pastores, prendas e preces, quermesses para quem, meu Deus, azul, olhando pelo Brasil soldado, menino, menina, suas plantas verdes, seu rebanho pálido, os Deuses sempre azuis, plantando flores de icterícia, nos campos verdes da tevê, se vê ali Brasil, entre os dentes do fuzil, estocadas debaixo do lençol, debaixo do teu véu, nem verde nem amarelo, bafo quente no vidro, negro, tão negro que é azul, não se vêem teus cães, teus gatos, teus canários dormindo nas gaiolas do pensamento, Brasil. Por que tuas grades são vermelhas?

Cadê teu cântico? Teu filho? Tua herança? Teu hino, teu húmus desgastado, depredado, traficado, adubado pelas mãos do Brasil, azul, dos pássaros agora extintos, (sil sil sil), do azul em extinção, de mim, de tu, de nós, da língua que morre e lambe tuas varizes tatuadas nas passadas, nas calçadas, na calada da noite, Brasil, tua celulite, buracos nas estradas, rodas, roda a roda Brasil, fica rico Brasil, manda teu fuzil para fora do meu mundo, manda teu filho para fora do teu mundo, Brasil, pra outro planeta azul, onde terá outro Brasil, natimorto, remendado, menino chamado, menina chamada, Sil, Sil, Sil, ninguém, escuta, chama a chama e morre pela queimadura do teu beijo.

Por que tuas lágrimas são vermelhas?

Brasil do sumiço, do deixa disso que hoje é dia de jogo, pego, largo, deito, infecto gripe dos teus pulmões virulentos, purulentos, macilentos da terra azul, é difícil continuar, irmão, irmã azul, dos jazigos no quintal, da lápide ilegível, da letra ilegível, da lei, do tempo, da fome, dos teus rins Brasil, me pergunto, por que Brasil, não Ilha de Vera Cruz, não Terra de Santa Cruz, Terra do Brasil, pau, Brasil, pau de antanho, de outro, de prata, de mulher, lá fora, o escravo, a janela da nossa solidão se fecha, por que hoje é dia, Brasil, hoje é dia e eu me pergunto.

Por que meus sonhos são vermelhos?

Foto retirada do site : http://gilgiardelli.wordpress.com

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Um momento

Péra,
pára
respira
respira
respira

Péra
pára
respira
respira
respira

Péra.
Pára.
Respira.

Péra

Pára

Res

Pira.

terça-feira, 22 de junho de 2010

O Artista

O texto dessa semana é um texto antiiiiiiiiiiiiiigo, lá do começo de 2008, quando eu sabia bem menos do que sei de literatura e escrita hoje. Mas é um texto que gosto. Um texto juvenil, pueril até. Talvez até me envergonhe de mostrar, mas eu gosto. Perdoem, eu gosto.

O Artista

Se eu fosse artista colocaria no papel o que meu coração insiste em gritar, meus ouvidos se forçam a musicar mas minha boca não pronuncia.

Se eu fosse artista saberia escolher as palavras mais belas e as organizaria de modo que te fizessem corar, e fizessem seu peito arquejar.

Mas não sou artista, não sou escritor, muito menos poeta. Não há cartazes na rua com meu rosto estampado, não há sessão de autógrafos, nem nada no meu nome que me identifique.

Mesmo assim faço questão de suar, perder noites e horas na esperança de ver o palco se iluminando com brilho de seus olhos acompanhados da ovação do seu sorriso, e mesmo que perdure um segundo, sentir num abraço, seu coração a me aplaudir de pé.

Mas tem um momento em que o artista sai de cena e é obrigado a ver a cortina se fechando, a orquestra parando e os aplausos amainarem; sem reconhecer um rosto sequer e sem ter riso por almejar, o artista se disfarça de sujeito comum e saí pela porta dos fundos rumo a um quarto de hotel qualquer, que de ser igual aos outros não vai se lembrar nunca.

Eu, que não sou artista, mas acompanho a todos, recolho-me para o bar, onde posso ser o artista que quiser. Peço a bebida mais cara, acendo um cigarro, mas sem beber nem tragar, durmo cansado, esperando algo que me não sei se vale a pena esperar.

Uma hora depois acordo sobressaltado, relembro que não sou artista, pego minha jaqueta, pago a conta do bar e ando na rua em busca de um rosto familiar qualquer.

Chego em casa com o Sol a me empurrar, jogo as chaves na mesa posta, e recito um poema de amor àquela que dorme e sonha. Sonha que sou artista, ilumina meu palco com o brilho de seus olhos, acompanha a ovação com seu riso, e, com entusiasmo de fã incondicional, me abraça pela eternidade, fazendo meu coração sentir seu coração me aplaudindo de pé.

Do Mestre Dostoievski


"Não, senhor, não quero saber destes forjadores de enredos! Em lugar de escrever algo de útil, agradável e consolador, comprazem-se em rebuscar as mais insignificantes minúcias, divulgando-as por aí. Francamente, eu os proibiria de pegar da pena, pois o resultado é que agente lê... e logo, sem querer, se põe a pensar no que leu.... e afinal de contas... fica com a cabeça cheia de disparates. E assim, repito: eu os proibiria de escrever, terminantemente, categoricamente, sem apelo!"

Príncipe V.F. Odoiévskii

Extraído de Gente Pobre - Dostoievski, Fiodor - Ed. José Olympio -1960

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Av. Paulista

Hoje no blog do Álvaro Alves de Faria tem um post falando de um acidente ocorrido ontem na Av. Paulista, às 22 horas, entre uma mulher num carro e um ciclista. O post está nesse link
http://blogs.jovempan.uol.com.br/poeta/geral/a-moca-do-carro-destruido-na-paulista/

Tentando afastar meus medos, meus traumas, meus fantasmas, escrevi esse poema, ou seja lá o que for.

AV. PAULISTA

Eu tenho medo dessa Paulista,
toda hora,todo dia.
Minha mulher vive zanzando por aí,
eu vivo zanzando por aí,
com medo,
mas zanzar é preciso,
viver não é preciso.

Eu não ando de bicicleta,
minha mulher também não,
mas mesmo à pé,
na Paulista a qualquer hora do dia,
tenho medo,
justamente por que alguém pode me jogar
na altura dum vigésimo quarto andar,
seguir seu caminho e deixar
minha mãe em casa se perguntando
por que é que ainda não liguei.

E ninguém vai falar nada,
e os coitadinhos
os culpados
mudam de cara,
à pé,
ou de bicicleta,
ou de carro,
ou de helicóptero.

Dependendo da hora
todo mundo é coitadinho
e a gente continua andando,
com medo,na Paulista de todo lugar.

Tentando se proteger, 17 de maio de 2010
R.B.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

A única saída - Ricardo Bruch


Eu preciso calar a boca, estancar o sangue, torniquete de sonho numa linha do futuro. Preciso ser mais direto, mais flecha, mais pássaro, submisso ao equinócio, mais pedra. E isso você disse numa segunda-feira à tarde, eu sentado no meu trono de mármore revestido com assento de plástico, lendo o jornal, com os pelos da perna duros de frio. Você falava e eu virava as páginas do jornal, nada do meu corpo atender à minha súplica: podia me inclinar para frente, para trás, forçar, deixar relaxado, era um rei que não justificava seu reinado, escravo da vontade que começava a julgar inexistente. Virava a página e você apoiada na porta, me observando, esperando para tomar banho; meus olhos desconcentrados identificavam sempre as mesmas palavras, mesmas linhas, mesma notícia; apenas passava os olhos pelas letras, sem sentimento, sem significado.
Nada saía.
Virei a página para que você achasse que estava compenetrado, preocupado com a economia nacional; franzia o cenho, mordia o lábio seco, meneava a cabeça em assentimento. Virei a página, um grito de letras garrafais pulsaram no mesmo tom frenético do meu coração cansado de corresponder ao meu esforço – nada saía.
Uma página inteira para me dizer que há 22 mil vagas de emprego. 22 mil vagas para que eu pudesse fazer o que quisesse da minha vida. 22 mil vagas, para advogados, engenheiros, arquitetos, vagas, mas nada para quem está há quarenta e cinco minutos com o rabo de fora, à guisa de exorcizar as pedras do destino rolando no estômago. E você me olha da porta do banheiro e as vagas (22 mil!) ululam e bóiam como a merda que eu tento parir, vagas para professoras, lixeiro, contadores, manhã, tarde, noite, nada que possa me ajudar no momento.
Faço força, você diz que estou vermelho como um pimentão, que não é certo fazer tanta força, eu paro, suspiro, os dedos não apertam o jornal com tanta esperança, eu sorrio para o rosto da minha mãe que se forma nos azulejos, de dentro do encanamento ela diz: A melhor saída é concurso público, e eu pensando em Hamlet, na Odisséia, no surdo-mudo da Fúria, do Som, do interior de uma cidadezinha onde eu talvez não precisasse de 22 mil vagas de zelador, frentista, bibliotecário, onde de dentro das paredes alvas do banheiro não precisasse ouvir minha mãe: A melhor saída é o concurso público. Eu escrevia versos, sonetos, sonhava com recitais, leituras de poemas ao ar livre, no Viaduto do Chá. Não é certo fazer tanta força assim.
- Escuta, vai demorar muito?
Você perguntou, impaciente comigo virando a página, tentando esquecer os conselhos das paredes, do vaso, do chuveiro que gotejou a noite inteira e não me deixou dormir; me concentrei nos pedregulhos que incham minha barriga, quase empurram meu umbigo para fora, me concentrei na dureza que fere meu intestino, e nada saía.
Um dia vi uma pomba ser atropelada por um ônibus. Suas penas voaram, ela rodou ao redor de si numa mudez agonizante de quem não sabe gritar nem pedir por socorro, apenas rodava com uma única asa, se perguntando por que não morrera na hora, com um golpe fulminante, por que estava lá, a girar, vendo as migalhas que há pouco mastigava, tingidas de sangue; no asfalto, vísceras e penas. Rodopiou até perder as forças e se aquietar na poça de seu próprio sangue. Um mendigo tentava chegar até ela mas semáforo não avermelhava. Soube que a pomba fora atropelada por que ele, com todo seu andrajo, fedor, repulsa, levou as mãos à cabeça e gritou: “Não!”. E lá estava a pomba quase morta, zumbi de si mesma, já sem observar nada, sem ver a roda dos carros, sem pensar nas migalhas, até que o golpe de um Volvo pôs fim ao seu sofrimento. O mendigo sentou no meio fio e chorou.
22 mil vagas.
22 mil oportunidades para se tornar vísceras expostas, angústias de meio fio.
22 mil oportunidades para 22 mil rodas porem fim ao sofrimento do homem.
22 mil vagas e a melhor saída é o concurso público.
Contenho a lágrima no canto dos olhos, faço força e gemo de dor.
- Conseguiu?
Não digo nada, fecho o jornal, coloco-o no chão, minhas mão se juntam, penso de novo em Hamlet e suas visões, em Dr. Fausto e nessa tarde de segunda-feira. Estou em casa criando raízes no chão gelado do banheiro, fazendo companhia para as vozes que saem de dentro do chuveiro.
E nada saía.
- Hoje eu vi uma pomba sendo atropelada.
- E daí?
Era uma pomba.
E foi atropelada.
Podia ter sido uma mulher pensando na vida, no namorado, na prova da faculdade, ou no exame de motorista que teria que fazer na sexta-feira que vem. Podia ter sido uma grávida, pensando no bebê nadando no ventre despreparado; podia ter sido alguém que acaba de conseguir uma das 22 mil vagas de emprego; 22 mil oportunidades de silêncio, doenças incuráveis e verrugas injustificadas. Podia ter sido você, ou eu, que só penso na merda dentro de mim, que se recusa a sair. Mas era uma pomba, e foi atropelada.
- Me lembrei disso agora.
- É só uma pomba.
É só uma pessoa, mulher, homem, segunda-feira, ônibus, roda de carro; São 22 mil empregos e nenhum tolete de merda nadando nesta privada.
Às vezes me sinto como um cemitério.
Não tenho coragem de te dizer isso, já que bufa, ameaça sair sem tomar banho, por minha culpa, por meu intestino vagaroso de velho precoce, cansada de esperar meu exorcismo malfadado.
- Estava pensando, concurso público talvez seja a melhor saída.
Você diz apagando o cigarro na torneira da pia.
Resignado, limpo a bunda, não olho o papel que permaneceu imaculado, dou a descarga e deixo o jornal no chão, o jornal e suas 22 mil vagas de emprego para administrador, químico, professor, e pego minha jaqueta enquanto você vê se a água do chuveiro está quente o bastante.
Busco pela rua migalhas e acaricio minhas lápides intestinais: nunca vão me abandonar.
Já não me sinto tão só, tão diferente por estar em casa numa segunda-feira à tarde, por não ligar para cada uma das 22 mil oportunidades de vazio, alegria self-sevice, happy hours tristes, deadlines, feedbacks, casas em Riviera, piscinas e churrasqueiras. Já não me sinto como uma pomba a se procurar entre as rodas, se procurar entre 22 mil vagas para se perder nos dentes da manhã.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Novidades?

Achei que mudando o look do meu recanto ia ficar com uma cara melhorzinha, mas ainda é same shit.

Como sabem, conclui meu primeiro livro que, como diz o Lobão: É um fracasso, mas eu adoro. Então agora vou me embrenhar num romance que vem me rondando.

Por isso, tentarei publicar um texto aqui por semana, ou dois no máximo, para desopilar.

Amanhã terá um texto inédito.

Hoje, vou sugerir algo à vocês. Há um video abaixo, neste mesmo post, recomendo que dêem o play e leiam o texto. Sem pressa, no ritmo da música.

Espero que sintam um frio na espinha.
Um abraço.





Um Jazz, Andrézão, um jazz

When He and I will be as one, canta a Nina enquanto meus dedos congelam e meus pés clamam para serem sufocados pela meia; canta para minha alma careca e aos meus olhos secos, entretidos com essa parede doente, que não ouvia sua voz, when He and I will be as one, grave, cantando do fundo de uma garrafa de vinho que não era para ser minha; eu sem poder ligar para minha mulher e dizer que o vinho está com gosto de vinagre. Posso ligar pro Massa ou pro Brunão, dizer tudo está perdido amigo, acabou a fé, quando a única coisa que queria era ligar para minha Pequena e dizer que não sei onde estão as minhas meias, que meus dedos estão gelados, todos eles, da mão, do pé, da nuca, das costas, tudo gelado, com a voz arranhada da Nina ao fundo He and I will be as one, e eu imaginando quando você, Pequena, cantava essa música para mim. Sinto mais frio, as paredes mais graves, a garrafa mais funda e você me perguntando se andei bebendo sozinho de novo, sem razão para mentir digo que o vinho está com gosto de vinagre, e você a qualquer momento vai dizer tenho que ir, vai começar a aula. Respondo para a mudez simpática do telefone que o vinho está com gosto de vinagre.

O disco roda na vitrola, eu me pergunto quantas rotações tem essa porra, pergunto em voz alta pras meias espalhadas pelo quarto como bolas da árvore de natal, protegidas pelo pó no fundo do armário, pergunto pras janelas fechadas, sofrendo os golpes da chuva, minha Pequena logo mais estará na chuva cantando baixinho He and I will be as one, e eu já em casa perguntando pra cadeira mais agasalhada do que eu quantas rotações tem essa porra, me referindo ao meu coração. A Nina diz pra mim I put a spell on you, e me sinto amaldiçoado, só por ter dito I put a spell on you, menos afinada que minha Pequena.

Penso, se eu pudesse escolher, que palavra eu seria.

Vinagre.

Disse em voz alta, com todas as letras Vinagre. Quis ligar para minha Pequena e dizer oi amor, eu sou vinagre, e desligar, rindo como quem toca a campainha das casas e sai correndo; depois vou ligar pro Massa, pro Brunão e convidá-los a tocarem campainhas e sair correndo também, debaixo do frio, com os dedos congelados, com a chuva a castigar as janelas abertas, plantando lágrimas nos olhos das paredes doentes. Vou ligar pra todos meus amigos, vamos tocar as campainhas e correr, amigos; a Nina canta esse vinho está com gosto de vinagre, ou melhor, ela grita And I don´t care If you love me, I´m yours right now. Saudades de falar com minha Pequena, que está na aula e não pode me atender, Desculpe o celular está programado para... Oi Pequena, o vinho está com gosto, ou melhor, I put a spell on you... deixe sua mensagem após o... because you´re mine.

Dou para pensar nos meus heróis, suas vísceras, vidas e me sinto vazio como um canudo, e dou para pensar em camas de hospitais, velas, velhas, cães e gatos pela metade, filhotes, avenida Santo Amaro, na fome, no gosto amargo na boca que não sai, eu juro que não sai. Ligo pro Massa, pro Brunão, pra Pequena, pra todos meus amigos, pra chorar um choro trôpego de bêbado, pra chorar os quartos de hospitais, os vivos, os poetas, a Nina, os gatos vivos, as mães, os cães vivos, os pais, os canudos que não afundam e são ocos, ligo para chorar a vida, especialmente para chorar a vida, e a meada que acaba de perder seu fio, nesse último gole de vinho que tem gosto de sangue.

Canta para mim quando eu acordar Pequena, canta outra coisa, não quero mais a Nina, não quero mais o celular que ninguém atende, canta para mim uma canção de ninar e me levanta desse chão, desgruda minha cara do livro de poesia, esfrega a saliva que escorre da minha boca pra gola da camisa branca, me levanta e me cobre com as roupas da cadeira mesmo. Canta, canta uma canção diferente, aquela que você sempre canta, melhor que a Nina, melhor que as minhas bobagens perdidas no seu caderno de estudo; canta uma canção de ninar, se essa rua, se essa rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar. Esquece o cansaço e embrenha seus dedos no meu cabelo, beija minha cabeça, liga pro Bruno, pro Massa, pra todos os meus amigos e diz que nem tudo está perdido, ainda há fé. Eu te agradeço amanhã, primeira coisa de manhã. Eu prometo.

Em forma de canudo, 31 de maio de 2010.


quarta-feira, 9 de junho de 2010

Estação Paraíso - Ricardo Bruch




- Moço como faço para ir pra Paraíso?

- Só seguir a fila daquele lado.

- Poxa, justo a fila que é maior!

- Todo mundo quer ir pra Paraíso.

As pessoas se amontoam em seus precipícios de corpos e lágrimas de suor, prendem a respiração e vão. Alguns se perdem, acabam na Consolação ou nos braços de seus Santos (Bento, Judas, Joaquim).

Mesmo sem seguir a Luz

- Todo mundo quer ir pra Paraíso,

com mochilas nas costas, bolsas pesadas de nada, papel, papel, papel, cremes para as mãos, batons no talo, espelhos trincados e carregadores de aparelho celular. Entram encurvados na estação, cansados, com a vista turva da velocidade cortante do trem, suspenso na linha azul que ninguém se dá conta. Protegem-se da chuva, formam filas e mais filas, filas para pegar fila, fila para se encostar, fila para fugir da fila, fila fica do lado de fora, para mofar na escada rolante de espera porque

- Todo mundo quer ir pra Paraíso,

mas ninguém quer tomar chuva.

Dentro da estação-purgatório Liberdade, almas e mais almas expulsas da Saúde sufocam, tossem, espirram e se esforçam para falar nos telefones; ouve-se do outro lado da linha algo repartido, interrompido, enquanto dizem

- Não to te ouvindo, não to te ouvindo,

e o vento bagunça os cabelos, a mulher derruba uma pasta com todas as contas pagas, e a garota de seios invisíveis enfia o dedo no ouvido e grita

- Não to te ouvindo, não to te ouvindo

para alguém que se desinteressa e se deslumbra com o movimento nas ruas, as cadeiras na calçada, pernas se roçando debaixo das mesas improvisadas, os copos de cervejas, as cinzas do cigarro perdidas debaixo da luz do poste na estação Luz, esquece-se da garota e seus berros de mil pulmões

- Não to te ouvindo, não to te ouvindo,

não desliga. Não desliga.

Quero sumir, pois não me sinto parte desse mundo universo-cloaca infinita; não gosto que me interrompam, me devolvam dos meus delírios estáticos, angústia silenciosa, angústia alheia e distante, distante dos garotos que roçam nas garotas com sorrisos de verão clandestino, distante do homem que bate fotos indecentes das mulheres dos seus sonhos; mas ao mesmo tempo tão perto da tempestade que deu para ser subterrânea e, além de ter molhado o túnel inteiro, inundou meu coração com dúvidas e lamentações (distantes, sempre distantes).

Tenho vontade de dizer:

- Vá você encontrar seu Paraíso.

Eu não sei onde fica, não sei.

- Vá você encontrar seu Paraíso;

você que saiu da sua Vila tranqüila de espectros e azulejos azuis das cozinhas mofadas, pipoca de microondas e pantufas de urso panda. Você que busca alento, sossego no ventre metálico de uma mãe com corpo de serpente, cuja voz é um grito de vento cronometrado.

- Vá você encontrar Paraíso,

que está com os dedos vermelhos por causa da sacola recheada de sonhos, sorrisos, sucos, com segundos contados para ruir e esparramar tudo no chão; está cansada de tentar, variar as horas e sempre dar de cara com esse formigueiro de santos esquecidos na porta do Paraíso, só porque

- Todo mundo quer ir pra Paraíso.

E o tempo come os relógios, pressa de celofane, ar viciado em expectativas do sossego, final de tarde, final da noite, do cursinho, final de tudo e o tempo começa a roer minhas unhas, e as pessoas ainda me perguntam:

- Moço como faço para ir pra Paraíso?

Eu ponho à termo minha epifania de lágrimas, suor, sacolas prestes a ruir, garotas, garotos, senhoras, o tempo a roer nossos olhos de acrílico, respondo:

- Não sei, vou para Sé.

A Sé dos anjos caídos, do cheiro de mijo que não chega no Paraíso, da Catedral esquecida, das chagas, dos pontos, putas, pontes e viadutos; não me pergunte mais do Paraíso, que dele não sei

- Vou para Sé,

esperá-la com os dedos em petição de miséria, fazendo o caminho oposto que ela fez; não me seguiu e foi pra Paraíso. Esqueceu que dia era hoje, esqueceu de pintar as unhas, exagerar no blush e no batom.

- Esqueceu?

- Esqueci.

E dei para pisar nas urtigas, nos lírios, morder as rosas, as margaridas as violetas desistiram de nascer, enfiei plantinhas azuis no nariz para não sentir o cheiro da Sé sem você, para não lembrar que você esqueceu,

- Esqueci.

foi parar no Paraíso com os risos tardios, o cansaço do mundo todo, as mães inchadas, o jornal de ontem e as unhas por pintar.

- Esqueci.

Eu deitado olhando as estrelas, rendido, rezando, pensando na vida distante de tudo, sobretudo me convencendo de que minhas entranhas estão fadadas pela vacina, pelo destino, pelo devir, ao sucesso que não saberei comemorar.

- Esqueci.

Deixo o tempo roer de mim o que restou, o rosto na fotografia em preto e branco, o vou te amar por toda minha vida no resto de gesso do meu braço esquerdo, sua letra, caneta rosa.

Perco-me nas vozes angelicais dos pastores da Sé, até que alguém me pergunta se estamos longe da Paraíso e eu engasgo com meu choro.

domingo, 6 de junho de 2010

Delírios Vertigens e Outras Realidades - PRONTO

Amigos e amigas,

é com este orgulho amador que informo: MEU PRIMEIRO LIVRO ESTÁ PRONTO

falta arranjar editora.

Estou obviamente feliz, orgulhoso, pois achei que nunca conseguiria este feito,

falta arranjar editora.

Mas ainda não posso comemorar muito,

falta arranjar editora.

Um abraço.
R.B.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Solidão I

Na minha solidão
eu sou você.

Se algum dia você ficar solitária,
poderá ser outra pessoa
se quiser.

Essa outra pessoa, em nossa solidão,
será todo mundo,
erguerá o copo e
fará um brinde
para ninguém.

01.06.2010.
R.B.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Esperança

De mim, ninguém espera nada.
Essa coragem
que tinge minha íris de castanho
não serve para nada.

No fundo dessa íris
há uma alma parecida com
uma pérola,
que apesar da vontade
de lutar,
diz:
tenho medo,
tenho medo.

E esse medo há de transformar
esta pérola numa
uva passa,
que as pessoas vão pegar,
mastigar e dizer:
esperava que fosse melhor.

Num sonho, 31 de maio de 2010.
R.B.


segunda-feira, 31 de maio de 2010

Um jazz Andrézão, um jazz

When He and I will be as one, canta a Nina enquanto meus dedos congelam e meus pés clamam para serem sufocados pela meia; canta para minha alma careca e aos meus olhos secos, entretidos com essa parede doente, que não ouvia sua voz, when He and I will be as one, grave, cantando do fundo de uma garrafa de vinho que não era para ser minha; eu sem poder ligar para minha mulher e dizer que o vinho está com gosto de vinagre. Posso ligar pro Massa ou pro Brunão, dizer tudo está perdido amigo, acabou a fé, quando a única coisa que queria era ligar para minha Pequena e dizer que não sei onde estão as minhas meias, que meus dedos estão gelados, todos eles, da mão, do pé, da nuca, das costas, tudo gelado, com a voz arranhada da Nina ao fundo He and I will be as one, e eu imaginando quando você, Pequena, cantava essa música para mim. Sinto mais frio, as paredes mais graves, a garrafa mais funda e você me perguntando se andei bebendo sozinho de novo, sem razão para mentir digo que o vinho está com gosto de vinagre, e você a qualquer momento vai dizer tenho que ir, vai começar a aula. Respondo para a mudez simpática do telefone que o vinho está com gosto de vinagre.
O disco roda na vitrola, eu me pergunto quantas rotações tem essa porra, pergunto em voz alta pras meias espalhadas pelo quarto como bolas da árvore de natal, protegidas pelo pó no fundo do armário, pergunto pras janelas fechadas, sofrendo os golpes da chuva, minha Pequena logo mais estará na chuva cantando baixinho He and I will be as one, e eu já em casa perguntando pra cadeira mais agasalhada do que eu quantas rotações tem essa porra, me referindo ao meu coração. A Nina diz pra mim I put a spell on you, e me sinto amaldiçoado, só por ter dito I put a spell on you, menos afinada que minha Pequena.
Penso, se eu pudesse escolher, que palavra eu seria.
Vinagre.
Disse em voz alta, com todas as letras Vinagre. Quis ligar para minha Pequena e dizer oi amor, eu sou vinagre, e desligar, rindo como quem toca a campainha das casas e sai correndo; depois vou ligar pro Massa, pro Brunão e convidá-los a tocarem campainhas e sair correndo também, debaixo do frio, com os dedos congelados, com a chuva a castigar as janelas abertas, plantando lágrimas nos olhos das paredes doentes. Vou ligar pra todos meus amigos, vamos tocar as campainhas e correr, amigos; a Nina canta esse vinho está com gosto de vinagre, ou melhor, ela grita And I don´t care If you love me, I´m yours right now. Saudades de falar com minha Pequena, que está na aula e não pode me atender, Desculpe o celular está programado para... Oi Pequena, o vinho está com gosto, ou melhor, I put a spell on you... deixe sua mensagem após o... because you´re mine.
Dou para pensar nos meus heróis, suas vísceras, vidas e me sinto vazio como um canudo, e dou para pensar em camas de hospitais, velas, velhas, cães e gatos pela metade, filhotes, avenida Santo Amaro, na fome, no gosto amargo na boca que não sai, eu juro que não sai. Ligo pro Massa, pro Brunão, pra Pequena, pra todos meus amigos, pra chorar um choro trôpego de bêbado, pra chorar os quartos de hospitais, os vivos, os poetas, a Nina, os gatos vivos, as mães, os cães vivos, os pais, os canudos que não afundam e são ocos, ligo para chorar a vida, especialmente para chorar a vida, e a meada que acaba de perder seu fio, nesse último gole de vinho que tem gosto de sangue.
Canta para mim quando eu acordar Pequena, canta outra coisa, não quero mais a Nina, não quero mais o celular que ninguém atende, canta para mim uma canção de ninar e me levanta desse chão, desgruda minha cara do livro de poesia, esfrega a saliva que escorre da minha boca pra gola da camisa branca, me levanta e me cobre com as roupas da cadeira mesmo. Canta, canta uma canção diferente, aquela que você sempre canta, melhor que a Nina, melhor que as minhas bobagens perdidas no seu caderno de estudo; canta uma canção de ninar, se essa rua, se essa rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar. Esquece o cansaço e embrenha seus dedos no meu cabelo, beija minha cabeça, liga pro Bruno, pro Massa, pra todos os meus amigos e diz que nem tudo está perdido, ainda há fé. Eu te agradeço amanhã, primeira coisa de manhã. Eu prometo.

Em forma de canudo, 31 de maio de 2010.

domingo, 30 de maio de 2010

Auto-retrato

Auto-retrato - Álvaro Alves de Faria
extraído do livro "Coleção Melhores Poemas - Álvaro Alves de Faria"

Ando sempre com a sensação
de estar à beira de um colapso.
Mas sei que isso faz parte
da brutalidade cotidiana.
Enquanto não dou um fim a tudo,
me submeto à próxima
vontade de existir,
como se tudo fosse normal

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Poetero - II

O mundo precisa de mais
Arroz
Feijão
e Vida.
E se não tiver arroz?
Fritamos um ovo.
E se não tiver feijão?
Fazemos um bife.
E se não tiver vida?
Sentamos na sala,
assistimos a novela
e torcemos para a morte chegar
na hora dos comerciais.

R.B.
Na cozinha, 27.05.2010.

Falso Poeta

Eu sei, não sou poeta. Mas é que às vezes uma poesia meio capenga vem à mim. Não tenho coragem de negá-la, dizer não, não fui eu ou é ruim. Mesmo sendo o maior crítico de mim mesmo. Enfim. Eis um pequeno poema:

Eu acredito na palavra,
no sem sentido
do sangue que corre
na contra-mão das veias.

Eu acredito nas pessoas.
Sim! Nas pessoas!

Eu acredito no de sempre,
no batido, na rotina, no cotidiano
que suga minha vida pelo canudinho,
aos poucos, pelos raios de sol.

Contudo, não acredito em mim,
pois nos momentos de aflição maior,
dentro da minha cabeça,
trago meus cigarros imaginários
e assopro a fumaça na cara
do tempo e da verdade.

Só por despeito.

R.B.

sábado, 22 de maio de 2010

Não deixaram

Eu devia parar de ler Kafka

Quis te comprar umas rosas, mas não deixaram. Por mais que eu forçasse a passagem, implorasse e distribuísse socos e pontapés para tudo quanto é lado, não me deixaram. Ofegante, tentei convencê-los de que eram para minha avó, internada num hospital, cuja única felicidade, além dos programas de auditório, era receber as rosas que eu levava. Não mudaram a expressão, cruzaram os braços e parados, me encarando, deixaram uma frestinha entre as pernas para eu sair. Avancei em direção ao menor, e tentei empurrá-lo. Puxaram-me pela camisa, me jogaram no chão: de volta à estaca zero. Levantei batendo as mãos na roupa para tirar a sujeira, pó, e toda sorte de coisas que se pode encontrar na rua, e disse: está bem, hora da verdade. E com toda sinceridade menti dizendo que eram para minha mãe, cega, coitada. E caso não leve as rosas para casa, vai dizer horrores de mim, derrubar tudo ao seu alcance e, por semanas amaldiçoar o filho, que não dá valor à mãe, não a ama. Perguntei à cada um deles se tinham mãe. Se não conseguir essas rosas terei problemas para o resto da vida. O maior deles olhou por cima da minha cabeça e acenou. Notei mais três homens se aproximarem e me imaginei sendo carregado por eles, feito uma cadeira, para fora do lugar. No de óculos avancei, tentei pela primeira vez na vida acertar um soco em alguém. Ele se esquivou e os outros se jogaram em cima de mim. Caí com o primeiro contato, gritei, segurei o choro e pedi desculpas. Desculpa, não faço mais. Um a um se levantou, minha calça fez um rombo no joelho, no qual despontava lágrimazinha de sangue. O sol esquentava minhas costas, me fazia transpirar e cheirar a queijo.

Quis te comprar umas rosas, quis mesmo, juro. E eu sei que vai bater o pé, reclamar que prometi, mil vezes; maldita hora que prometi. Mas não deixaram. Mesmo assim, invocará que eu segurava sua mão, encarava seus olhos, inclusive acariciei seu rosto, beijei sua boca. Como ia saber que não iam me deixar? Ela olhava o roxo no meu olho, o dente capenga na gengiva, para lá e para cá feito um balanço, o nariz meio torto pelo golpe derradeiro, e apenas dizendo: você prometeu.

Quis te comprar umas rosas, não deixaram.

R.B.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Razão

O Maldito saiu sem se despedir, pensou. Pegou as coisas, e saiu pela porta da frente. Não disse: Tchau. Já vou. Já volto. Fui. Não me espera. Ficou sabendo de sua saída pelo bater da porta, cujo eco fez questão deixar mastigando o ar, julgava que ela não despertaria com o seu adeus. Ela ouviu, e não chorou. Sorriu, sem saber a razão, mas estava lá, com a brancura dos dentes contrastando com a escuridão do quarto. Por um breve instante repetiu: Maldito, Maldito, Maldito. Não por raiva, mas por ele; achou que merecia essas palavras, por consideração. Logo parou, pois gostava da sua vida assim, imprevisível. O Maldito achava graça quando ela não respondia sempre que dizia: acho que vou embora. Via tristeza em sua mudez, pobrezinho, era expectativa. Ela diria: vá, se pudesse; vá com Deus, quero ver encontrar outra como eu, que não se importa quando troca os nomes, sussurra todas as coisas que eu sussurro na tua orelha, que finge como eu finjo, é isso aí: finge tão bem quanto eu finjo. Um calafrio percorreu suas coxas, eriçando os poucos pelos dourados que nela nasciam. Ansiosa, queria ver como os homens reagiriam aos seus encantos, tão frescos e ansiosos. Ameaçariam se jogar pela janela, pela ponte, pela sala de estar para dentro do aquário? Ela ria sozinha, jogada na cama, nua diante de seus pensamentos. Gostava de rir, ria à larga. Repetiu com gosto mais duas vezes Maldito e se preparou para ir à academia, sem calcinha.

Emoção

Pegou seu descontentamento, enfiou-o no bolso, dobrou a primeira esquina e flagrou-se de volta à porta da casa dela. Tencionou subir, tocar a campainha; talvez pedisse alguma coisa para beber, algo que fizesse um pedido de desculpas sem gás descer goela abaixo sem borbulhar risos contidos nas paredes das gargantas, algo que preenchesse ambos com um contentamento existencial pleno, que nem bolo de chocolate esparramado pelo pescoço, a aspereza da língua escondida entre o açúcar e o êxtase; algo que os botasse para dormir, e só acordar três, trinta, trezentos dias depois, ainda trêmulos de prazer. Seguiu em frente, cruzou um prédio onde todos dormiam, passou por pombos em estado de graça, inchados feito balões a subir pelos ares em aspirais vertiginosos. Contornou ruas, praças, avenidas e uma ponte enorme, laçando tudo com o cadarço do sapato, só para ter onde ver sua desolação jogando baralho com a tristeza da noite, emperiquitada com seu colar de estrelas. Seu coração batia ao ritmo de uma sonata de Beethoven, mas o amor dela fazia-o sentir-se como um poema obsceno do Bandeira. Repetia: Luísa, Beatriz, Maria, Ana, e cada vez que repetia pensava nos dedos finos, pernas grossas, rosto perfeito, na preocupação desnecessária com o pé da mesa roída em noites carinhosas de amor atrapalhado; lembrava do cabelo frisado logo de manhã, do vestido azul combinando com os olhos (castanhos) e com os sapatos. Repetia: Beatriz, Maria, Ana, Luísa. Na contramão de um sonho perdido, topou o primeiro beijo lendo jornal de vinte anos passados. Tempos em nos quais os lábios dela eram seu único destino: bons tempos, que permanecem estendidos no varal da memória. Por mil anos ficará sentado vendo o metrô passar todas as noites, pensando na vida, remoendo o remorso dado em retorno aos afagos metafísicos e magistrais. No fundo, joga milho ao chão porque sente saudades, o milho que ele mesmo vai catando um a um, pronunciando o nome dela: Maria, Ana, Beatriz, Luísa.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Trecho do meu conto chamado Alheamento

Às vezes acho que tudo isso foi um erro. Às vezes acho que isso tudo aqui não vale nada, sabia?
Mais uminha só, pra acabar de vez e eu ir embora e você fechar tudo. Mais uminha só.
Às vezes tenho uma sensação de, uma sensação estranha, um alheamento, acho que é isso, alheamento, a-lhe-a-men-to, assim, anote aí, que é uma palavra bonita, anote, alheamento. É como se meu coração batesse alheio ao meu sangue, como se meu corpo vivesse alheio à minha vida, como se meu espírito vivesse alheio à mim mesmo. Parece loucura, mas é verdade, não é loucura não. Não. É como se tudo existisse contra a minha vontade, isso se é que tudo existe, ou existe tudo, seja lá o que for tudo, seja lá o que existir, sei lá se é isso que bate, vive e dá saudades da minha mulher, ou a calça preta dela. Me pergunto se tudo não é apenas um erro qualquer, uma cagada. Eu é que não tenho certeza de nada, já pensou se nada for o mesmo que tudo?, que confusão que não ia ser.
A saídera, eu juro. A saídera, pra concluir o raciocínio.
Talvez tudo seja um erro, e tudo seja nada, e eu viva sem saber de nada, que é o mesmo que saber de tudo. Me dá mais um último traguinho que gostei das coisas que falei. Mereço mais um golinho, e me dá uma fichinha, que hoje foi dia de pagamento. Duzentos e cinqüenta mangote e sinto que to com a bola toda.

Acidentes

Oi mãe, só liguei para dizer que vou me atrasar. Estou perdido entre tantos escombros, que nem sei de onde surgiu tanto pensamento para cair em cima de mim, de uma vez só. Não estranhe minha voz, é a água dessa gente que só sabe fazer chorar e quase me afogou. Essa gente, em resposta às minhas perguntas, diz apenas: não sei, não sei, não sei... porém continuam caminhando, para onde? Não sei, não sei, não sei... É isso, acho que vou demorar. E talvez quando eu finalmente chegar, você ache que meus lábios estão um pouco esbranquiçados, que meus olhos voltaram estrábicos demais. Foi uma confusão que eu fiz na calçada; contudo me disseram que anotaram a placa e que alguém, um dia, há de tomar as devidas providências; então, não se preocupe. Se por algum acaso, você ouvir algum canto dizendo que fui visto caindo sem minhas asas de espuma, não acredite. Decerto que janela estava, sim, aberta, confesso; mas não a atravessei. Não agüentaria perguntar a mim mesmo o que foi que eu fiz, sabendo que nunca obterei uma resposta. Acho que estou chegando, mãe. Não devo demorar mais muito tempo. Verdade que já deveria estar aí, mas a estrada é que é ruim. As curvas, faceiras, deram para dançar comigo no colo e mudavam de direção conforme o canto dos pneus. Sorte minha que as paredes das suas entranhas eram feitas de marmelo. É possível que um cheiro de chuva invada seu nariz, meio inadvertidamente, feito gatuno, e que esse cheiro confunda um pouco a lembrança que tem do meu perfume. A culpa é minha. Fiquei tanto tempo deitado na chuva, que transformei todo meu corpo em gotas esparsas na janela. A qualquer momento agora, mãe, a campainha vai soar, e, se por coincidência, soar rápido demais, antes de desligarmos, foi porque peguei carona nas asas da saudade. Bom, preciso desligar, que o céu vai abrir, amanhã.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Nasce a noite mais quente do ano

A meia-noite inicia seu bordão atrás dos prédios que escondem o horizonte, todas as luzes estão apagadas, os lençóis são brancos. A meia-noite inicia seu bordão sob a minha cabeça molhada de suor. Nasce a noite mais quente do ano.
O arsênico borbulha na panela, as praças de névoa, o sino pede um refresco e não toca, por mais que se dependurem na sua corda e ele se mova pra lá e para cá não adianta, ele não toca.
Grupos permanecem em silêncio, as pessoas se afastaram, eu, infelizmente estou cansado e com sono demais para continuar. Autômato me deito com um livro na mão. Não há ninguém ao meu lado, não posso me cobrir, não posso continuar, boa-noite.

R.B.

Ouch - Resultado revista Ficções 19 - Mariana não está lá

Amigos,

hoje saiu o resultado da Revista Ficções 19, meu conto Mariana não estava lá. Não posso dizer que fiquei feliz com isso, ou que também fiquei triste. Acho que faz parte.




Mariana


Para Mariana

São Paulo não tem cheiro de mar. Tem cheiro de tudo: de lago, de rio, de poça, de esgoto, de chuva, de chorume, mas de mar, não. Por alguma razão, que me fugiu sem deixar vestígios, eu sabia que, se não sentisse cheiro de mar, ia morrer. Meu corpo me confirmava isso; passou a tremer, a visão se atropelava escada abaixo, o coração ameaçava explodir de tanto precisar do tal cheiro. Desconfio que tudo tenha se iniciado com o sonho que tive essa noite.
Estava quente, abafado, me sentia nas ruas do Recife, de João Pessoa ou de Salvador, mas não em São Paulo. Sentia tudo tão cálido que sonhei que mijava areia. É possível que a areia tenha cheiro de mijo, porém não vai ter nunca cheiro de mar. Assim, enquanto mijava rios de areia num bueiro caolho e seco, espalhando grãos de acordo com o capricho do vento, ora em direção ao infinito, ora nos pés afobados, que passam correndo, suados, com pressa, um anjo me disse: vais morrer. Disse assim mesmo, na segunda pessoa para causar efeito, e saiu correndo para pegar uma pipa que morria atrás dos montes, entre as águas espraiadas, habitadas também por anjos, só que de outro tipo.
Acordei sobressaltado, com as mãos suadas e coração prensado no peito. Recebi uma mensagem de um anjo, de morte, do céu de São Paulo, porém apenas um pensamento habitava minha cabeça: preciso voltar a dormir, pois ainda faltavam três minutos para as seis horas, e os juritis, canários e sabiás dormem bêbados no seio de Jurema.
Depois desse sonho, adquiri o hábito de caminhar pela rua aproximando meu nariz dos ombros nus, dos cabelos, das mãos, em busca do que eu precisava para não morrer. Percebi que em São Paulo as pessoas não têm cheiro de mar.
Um pouco decepcionado com a falta de mar nas pessoas, caminhava. Caminhava sem destino, mesmo ouvindo distante, no alto da Catedral da Sé, o gemido do sino, que advertiu: restam doze horas para o fim do dia. Minha perna estava mole, igual aos meus braços e meus olhos, quase gelatinosos a esta altura. Vou derreter logo mais. Pensei em ligar para Moisés e pedir uma ajuda, afinal, de assuntos marítimos ele entende. E outra, a tarefa nem seria tão árdua assim; bastaria que me desse um arremedo de cheiro, uma reminiscência daquele odor que senti uma vez e, pelo que me lembro, me deixou mareado.
Moisés está ocupado. Todos estão ocupados para se lembrar do mar.
Sentei numa mesa, na rua, na Consolação, pensei em pedir uma cerveja. Cerveja combina com mar, no entanto cerveja, pelo que pude ver depois do terceiro copo, nada tem a ver com o mar; cerveja é praça, é esquina, é cadeira de plástico, é noite.
Perdia meu tempo e minha vida, que pingava num conta-gotas asfixiante no Centro de São Paulo. Descrente de minha salvação, tentei lembrar a parte final de um pai-nosso improvisado, para que preparassem as coisas para mim, para que soubessem que ao menos eu fiz o que pude, mas não deu.
Eshtá tudo beim? Senti uma mão tocando meu braço grudado na mesa. Era uma voz diferente, não era daqui. Seria do céu? Um anjo in persona para me levar? Nunca imaginei que anjos tivessem sotaque. Na ponta dos seus dedos senti um ar gelado, toque de onda se aproximando. Quando ergui a cabeça, com a testa vermelha por estar horas abandonada no braço, testa vermelha de desistente, vi seus olhos castanhos, resplandecendo o azul que eu buscava. O mar!
Aos poucos, entre um pedido de informação, de onde fica o Mashp, prum deixa que eu te mostro, e por favor não me deixe morrer, Mariana me salvou, me levou pra tua Vila e lá, nos becos do teu pescoço, senti o cheiro de mar, e me avivei, aos poucos, bem aos poucos, para aproveitar cada gota do suor que vinha da tua profundidade até minha língua. Assim, lentamente fui sendo tragado, onda a onda, até que me engoliu, pelos poros, pela boca. Não lutei, não tentei nadar de volta para tua margem e, submerso em teu corpo me rendi, satisfeito e embevecido, erguendo a bandeira dos afogados.