quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O nascimento de uma idéia morta




Querem me entender, eu sei, querem me entender e ficam imaginando

- por que diabos esse velho carrega esses discos para lá e para cá

Enquanto eu caminho alheio aos olhos, aos semáforos que mudam de cor para os outros

- sempre para os outros,

E as buzinas dão o ritmo dos meus passos, que eu acelero conforme elas se aproximam

- quer morrer, velho?

Gritam os capacetes, os punhos em riste para fora dos carros, vibrantes como cordas vocais, as retinas exaltadas, os olhos vermelhos, sequer notam os discos que eu carrego debaixo do braço, sem sacola, com a cantora estampada na capa, um microfone antigo próximo aos lábios, há mais dois debaixo deste, que me serve de estandarte, para suscitar a curiosidade nas pessoas, nas outras pessoas, não naquelas que se resumem à coisas pequenas como

- quer morrer, velho?

E não aproveitam para ver que há uma relíquia do jazz nos debaixo dos meus braços; se soubessem, talvez tivessem me dado passagem, tivessem reduzido a velocidade, ou quem sabe até

- quer uma carona, senhor?

Mas não é assim que as coisas funcionam por aqui.

Enquanto cruzo o viaduto meus passos são longos, pois gosto de encarar os pombos nos olhos; são eles os donos deste viaduto, eu sempre soube disso, tomam conta da cidade pelas manhãs, protegem as esquinas enquanto se alimentam de restos. Eles viverão de nossos restos enquanto sempre serão inteiros, hirtos, nos beirais das pontes, dos viadutos, e nós sempre seremos os restos de que eles vão se alimentar. Debaixo do viaduto há uma vontade, um sonho adolescente, um sonho de liberdade que não se conquista com o pagamento em dia dos carnês, dos boletos, de todas as coisas que arremessam por debaixo da minha porta, sem saber ao certo se pertencem a mim mesmo, quando abro a porta para indagar

- você tem certeza que isso aqui é meu?

Já não há mais ninguém, é difícil perseguir as sombras nos corredores dos prédios antigos, elas se dispersam com as sombras que já ali habitam há anos, e se mesclam, e se misturam entre si, formando um corpo único de sombras que nunca responde pergunte alguma, a qualquer hora do dia; cansei de me sentar nos corredores a espera que alguma sombra saísse debaixo das portas para conversar, para compartilhar algumas coisas que havia pensado, para ouvir a voz de outra pessoa, mas as sombras são inatingíveis, num prédio do centro da cidade e toda luz, toda luz é apenas uma sombra que está a nascer.

Já estamos no final da tarde e os pombos, aqueles que levantaram mais cedo se retiram para dormir, e sobem aos telhados, às coberturas dos prédios, para o justo sono, e os carros acendem os semáforos, e daqui do alto vislumbro mãos solitárias de dentro do carro, trocando as marchas as estações do rádio, acendo os faróis. Ao menos eu tenho os meus discos, tenho esta mulher para passar as noites, com estes olhos negros abertos e estes lábios molhados, pintados com muito jeito, mais fulgurante que as luzes alaranjadas do fundo, mais fulgurantes que as luzes de todo o palco, luzes o bastante para não me fazer pensar nas sombras, nas pombas, nas bombas que dormem nas bocas dos carros

- quer morrer, velho?

E conforme o céu dá para se esconder atrás dos prédios eu acelero meu passo para meu apartamento; o centro da cidade não é lugar para um senhor como eu, para essa moça que segura tão docemente o microfone e aposto que está muito agradecida por eu tê-la tirado daquele monte sujo, daquele canto esquecido do sebo, onde a colocaram sem perceber que não era ali seu lugar, misturado com paisagens abstratas e homens cabeludos, vestidos com calça de couro. Seu lugar era num pedestal, logo na entrada para que todos pudessem admirar. Sim, definitivamente, ela está agradecida e não merece perambular pelas ruas escusas do centro da cidade, onde a qualquer momento, lábios, às vezes não tão puros quanto os dela, chamarão

- psiu,

E seguido do

- psiu,

Vira um aceno com o dedo, fino de fome, porém ornado com um esmalte rosa, ou vermelho, coordenado com a cor da blusa fina, quase transparente, denunciando formas vivas recheadas de lágrimas que não se derramarão nunca, pois, caso comecem não terminarão nunca, e toda a cidade será inundada, por isso, que as lágrimas se trancam num

- psiu,

E se escondem entre a sujeira das unhas tingidas de vermelho ou rosa, ornando com a cor da blusa, fina, gasta, quase transparente, denunciando com um pudor tocante as formas do sacrifícios que me faz pesado de dó. Em pouco tempo, os chamados

- psiu,

Vão ficando distantes. Não tenho dúvida que alguém perguntará, em breve,

- quer uma carona?

E a garota, a essa altura, congelando de frio, vai deixar de fazer bolar com chiclete, vai deixar de pensar

- que merda de dia,

Ou coisa parecida, e vai entrar no carro, e aceitar a carona para lugar nenhuma, para logo ali, esquecendo-se de que, dentro de vinte ou trinta minuta, estará de volta, com um

- psiu

Um pouco mais fraco, um pouco mais rendido às lagrimas que, que derem para cair, não param nunca mais e hão de inundar todo esse mundo.

Quando chego no meu prédio, é a luz do poste que me dá

- boa noite, senhor,

Não é o rapaz largado no chão, com um pé faltando o chinelo, ou a senhora gorda do outro lado da rua, desafiando a consistência da cadeira de praia com seu corpo cansado, que me dirigem à palavra, não são as garotas que passam segurando as bolsas com as duas mãos ou os olhos assustados. É a luz do poste que ilumina meu caminho, inclina o tronco, olha-me nos olhos, estende a mão, indicando a porta de entrada, quase sempre obstruída com o rapaz alto, magro, sempre usando óculos escuros, que cede tão pouco espaço para que eu possa entrar, que temo esbarrar meu corpo no dele e derrubá-lo; mas isso nunca aconteceu. Apesar da magreza, todas as vezes que esbarro no corpo do rapaz sou eu quem sou jogado para o lado e por pouco não caio de volta na rua. Às vezes murmuro,

- perdão,

Mas quando olho para trás já é tudo sombra. O rapaz já é sombra, os óculos escuros, a porta obstruída, sutilmente encostada pelo vento.

Porém, desta vez não havia rapaz, nem pouco espaço para que eu pudesse passar, nem trombada, nem

- perdão.

Mesmo assim, mesmo não havendo nada, a porta silenciosamente encosta e tapa a entrada da luz que cordialmente me mostrou o caminho e dirigiu-se a mim tão educadamente,

- boa noite, senhor.

Com um certo pudor, tapo os olhos da mulher que segurava o microfone como se fosse uma rosa, não quero que ela veja o matiz das paredes que servirão de platéia para sua voz, não quero veja os corredores por onde terá que passar para entrar no meu quarto, não quero que veja a umidade que domina todo o canto esquerdo do andar; ela deverá ver apenas o meu quarto, minha cama empilhada de livros antigos, discos, roupas, e que, apesar da estarem ali estão limpos, e não foram contaminados pelo ar viciado do prédio. Por isso, apenas quando abro a porta do quarto, e fecho-a atrás da mim, destampo os olhos da mulher cujos lábios abertos parecem prevenir um sussurro, quiça um beijo, desses de carinho, que vem junto o sol da manhã, que ela ficará muito feliz em saber que preenche todo o meu quarto, e eu faço questão de deixar entrar, por isso mesmo não comprei cortinas.

Deixo-a separada dos outros que também salvei da pó, da poeira, do mofo, do esquecimento, deixo-a repousada na única cadeira do cômodo, bem diante da máquina de escrever, sem papel, sem tinta, com algumas teclas totalmente cegas, e enxó uma pequena panela com água, não digo que é da torneira, não digo, e preparo um café. Um a um coloco os livros diante da porta, já devidamente trancada, coloco as roupas em cima da máquina de escrever. Não são muitas, um homem da minha idade já não carece de tantas roupas assim. Tiro os sapatos, coloco-os debaixo da cama, volto para a cozinha, não sem antes acariciar os cabelos da mulher, que tem os olhos tão negros, tão penetrantes que são duas explosões prestes a nascer, bem ali, na minha cadeira, enquanto eu faço o café.

Dou o primeiro gole sem oferecer a ela, deixo escapar, em voz alta, para a cortina que divisa a pequena cozinha do meu quarto,

- não tem açúcar, por isso não ofereci.

E volto para a sala, que também é meu quarto, que também é meu refúgio, e é minha memória e dou para observar os retratos, não são meus. Já estavam aqui quando eu cheguei. Mas este garotinho, com essa bermuda – julgo ser marrom – presa por suspensórios, e esse bonezinho, poderia ser eu, sem dúvida poderia ser eu. Esse homem com bigodinho fino, e cabelo bem separado, poderia ser meu pai, talvez tudo tivesse sido diferente se esse homem caridoso, que faz questão de posar de mãos dadas com seu filho na foto, fosse meu pai.

Estou neste apartamento, no andar térreo deste prédio no centro da cidade há pouco tempo; foi o único que consegui alugar com uma aposentadoria que inventaram para mim. No mesmo dia que descobri que podia contar com uma aposentadoria, um rapazinho, que poderia ser eu, mas era meu filho, decidiu que não era mais possível que eu ocupasse um quartinho um pouco menor que esse aqui, nos fundos da sua casa.

- Não tem problema, filho. Sabe que não quero incomodar.

E não me lembro o que ele disse, ou se ele disse alguma coisa, ou se foram as costas dele que me deram a impressão de ter tido alguma coisa, que não eram palavras, mas sim, um simples

- não é possível que você continue a viver aqui,

Em resposta a esta afirmação, dele, ou das costas, ou da cama que rangeu quando eu me sentei, respondi,

- Não tem problema, filho. Sabe que não quero incomodar.

Um dia, provavelmente contarei toda minha história a ela, que está ansiosa para que eu tire esse disco negro de dentro do plástico e preencha o quarto com a sua voz, com a sua melodia, com a energia que emana de seu corpo esguio, de vida; pego o disco, giro-o entre os dedos, vendo-o dos dois lados, abraço-o, pouso-o perto do coração para que ouça primeiro a minha música, depois, outra hora, contarei toda minha história a ela, mas antes, preciso pensar em como direi que não tenho aparelho de som.

Um comentário:

Bruno Batista disse...

Andrezão, bom texto, boas descrições, como é do seu feitio.
Mas algo me intriga: que estilo é esse em que as frases terminam com vígula e de repente aparece um travessão na outra linha, como se fosse o início de um diálogo ou monólogo? Não entendi muito bem...
Abraços!