quinta-feira, 16 de junho de 2011

Quiromancia - Para Mariana


Na palma da tua mão me encontrei;
vida, coração, fortuna, amor.

Numa lombada funda tropecei e cai na linha da sua vida,
aprendi a ler, escrever e filosofar teu corpo.

Coração, Sol distante, pra lá dos antebraços, montanhas e nuvens de sorrisos intocáveis.

Ao topar com a linha da fortuna guardei meus poemas,
minhas visões na caixa dourada do inominado,
guardei tudo o que tenho, tive e terei,
para na linha do amor
me perder completamente,
para sempre.

R.B.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Folia


Os cachorros dos meus cinco anos brincam com a bola do tempo na porta do meu quarto, minhas professoras ululuam com tocos de giz, apagadores carecas e jalecos manchados pelos quatro cantos casa.
Ouço o estalar do chão, o chiado das unhas pintando o taco de madeira nova, os tombos, o latidos contidos para não me incomodar. Sinto o roçar dos dentes brancos, o castanho dos olhos se encontram para uma tarde de folia debaixo do Sol, como se o asfalto fosse grama, como se meu corpo fosse grama.
O tempo roeu o pé da minha cama numa tarde em que me tranquei no banheiro dos fundos para contar minhas histórias aos azulejos desinteressados.
O novelo da minha vida está por um fio infinito, fiapo frágil da eternidade.
Todas as paredes estão trancadas conforme sua vontade e eu estou fadado a ser uma carta qualquer de um baralho viciado, acanhado entre seus doces dedos, ou nos lábios negros dos cachorros, em pedaços.
Os cachorros dos meus cinco anos brincam com a bola do tempo na porta do meu peito.
A lua não está nem aí.

R.B.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Insomnia - R.B.




Insônia, insônia minha

Me carrega com a nevóa dos teus braços para o palato da boca da noite, boca de pólvora seca; as estrelas são dentes prateados, prantos, prontos para se apresentar num bocejo longo de gato preguiçoso na espera: os peixes voadores ainda rolarão do teto para o colo.

No âmago dos meus olhos goteiras caem no chão fazendo

ploc

como se caíssem dentro dum balde já cheio de sonhos sonhados com água doce do aquário esquecido num quarto enorme, repleto de quadros meus, minha figura, mas com rosto diferente, cabelo diferente, voz diferente, mas ainda assim eu, com o abismo dos meus prantos lembrando o eco dos teus sonhos profundos, onde não há

ploc

caindo feito gota em poça. No quarto não há poça, não há balde, o chão é todo lago, e qualquer gota que cair fará

ploc,

e qualquer ninfa, anjo, seres voadores multicoloridos da poesia intransigente do transtorno do sono, sem remédios para poder contar farão

ploc

e te verei distante, brincando com cavalos alados rolando pela grama, cachorros azuis pulam por borboletas da cidade grande, aprisionadas na imaginação dos muros da avenida Paulista, que não dorme, e ouve

ploc

ploc

ploc

o motor dos caminhões atrapalha a concentração das minhas mãos, minha razão procurando um sinal de qualquer coisa, qualquer santa do aparelho de televisão ornamental, suspenso na parede, inclinado feito ventilador,

ploc

ploc

Insônia, insônia minha, até quando deitarei minha cabeça nas tuas coxas quentes de amazona, até quando terei de abanar meu rabo na espera de um suspiro; até quando a noite passará por mim, se espreguiçará e, com bafo de estrela cadente vai me perguntar

- de onde vem esse barulho de goteira?

Do limite dos meus dedos, das sombras, do colírio vencido dentro do armário, da ponta do meu beijo, do balde que nunca transborda: bom dia que já é hora de acordar.

R.B.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

A Salvação


Só o surrealismo salva!!!

quarta-feira, 9 de março de 2011

A sala do médico




Ainda bem que pintaram essas paredes de azul, que tiraram o branco e aproveitaram para levar os sofás antigos, certo que agora ninguém mais vai ficar aqui na minha frente, lendo revistas velhas e olhando no relógio a cada hora que passa. A espera me trás lembranças de brotarem gotas enormes de suor às minhas costas e de fazer meu corpo tremer e me perder no tempo e no espaço de mim. Tudo ficava muito pior com as paredes brancas, aquela gente e eu apenas repetia baixinho

- não sei quanto tempo vou agüentar,

ao invés de dizer

- Sebo Boa Esperança, em que posso ajudar?

Não conseguiria me mover ou pensar no preço dos discos, dos jornais, tanto faz que tivessem etiquetas diante de mim, tudo era aquela sala branca e o sofá, as pessoas a espera, olhando o relógio, contando os minutos, esperando como um dia esperei ao lado dele, o doutor chamar-nos para dentro

- Vamos, Senhor Alberto?

O Senhor Alberto a olhar para mim, esperando que eu me levantasse também, antes que o médico dissesse vamos, antes dele, não vê que o doutor está chamando? Não movi um músculo e vi como ele se arrastou para dentro da sala, que de onde eu estava podia distinguir apenas os pés gelados da cama de metal, até que o médico e sua voz perguntou:

- A senhora não vem?

Não tive coragem de dizer não, simplesmente não, apenas balancei o rosto, tremendo, estranhando aquele sorriso intruso nos lábios, camuflado com a branquidão das paredes.

Antes mesmo que fechasse a porta, eu já comigo mesma

- Não sei quanto tempo vou agüentar.

Não sei dizer se de fato se agüentei, se não fui eu que saí pálida da sala, sem saber o que dizer, sem saber porque o médico se escondia atrás da porta, despedindo-se com um aceno tímido, engolindo o sorriso que há sei lá quantos minutos atrás ostentava como um bilhete premiado de loteria, não sei quanto tempo agüentei e quantas vezes me perguntei

- Não sei quanto tempo vou agüentar,

Quantas pessoas entraram, sentaram ao meu lado, folhearam as mesmas revistas dos que ficavam sentados no sofá olhando o relógio com a mesma freqüência, quantas vezes o telefone tocou e a secretária atendia

- Consultório médico,

Com uma animação que eu não tenho quando atendo

- Sebo Boa Esperança.

Ainda bem que pintaram as paredes de azul e trocaram os sofás de lugar, assim não me lembro de como suas mãos estavam geladas e de como seu rosto pálido. Nunca vou me esquecer do olhar absorto pelas paredes e a mudez que foi rompida quando a porta da sala do médico abriu e ele chamou outra pessoa

- Moça, quanto custa esse livro?

O segurava, virava, mirava-o como se nunca tivesse visto nada parecido antes, como se ela mesma tivesse feito a pergunta em outro idioma, ou tivesse perguntado

- Vamos?

Mas sem o sorriso, sem as rugas que surgiam ao redor dos olhos, sem o gel no cabelo, sem saber responder a pergunta e a mocinha a me olhar esperançosa ou ao relógio cada vez que eu girava o livro em minhas mãos, sem notar a etiqueta branca, na primeira página, me assustando quando a menina arranca o livro das minhas mãos, descobrindo a etiqueta com o preço na primeira página.

- Não sei quanto tempo vou agüentar.

Ainda bem que aquelas paredes brancas não estão mais aqui, isso facilita que eu volte a ter atenção e torcer para que da próxima vez que alguém me perguntar

- Moça, quanto custa esse livro?

Eu não voe embalada pela memória a um lugar que me faz derramar lágrimas disfarçadas de silencio. Ainda bem que tiraram o sofá, as pessoas, as revistas, para que eu possa viver o dia em si, ver rostos diferentes, não afundados nas revistas; há aqui apenas o mesmo velho, que fica horas vendo as capas dos discos, o rosto das cantoras, encara algumas com tanta paixão que às vezes acho que vai beijá-las, sem perceber que é o plástico, pó, papel, tal qual eu não percebi, quando chegamos em casa, que os talheres não nos encaravam, nem os pires, ou os azulejos, que graças a Deus não eram brancos, e se perguntavam o que havia que o meu marido, que nunca bebeu, tomou quase num segundo a única garrafa de pinga que tinha em casa.

De repente o velho escolhe a capa do disco, e leva o disco abraçado, sem colocar numa sacola. Quando ele sai me deixa aqui para torcer sozinha que as paredes não fiquem pálidas de novo, que ninguém saia de alguma sala escondida para me perguntar:

- Vamos?

Eu sem saber o que responder, sem saber se é pior ficar aqui, me perguntando

- Quanto tempo será que vou agüentar?

Será que deveria ter entrado com ele, ter impedido que suas mãos ficassem geladas, ou que todo seu corpo tremesse angustiado. É possível que se eu estivesse ao seu lado, ele não chorasse quando o médico disse:

- infeilzmente...

Fingindo que era a primeira vez que dizia isso para alguém, fingindo que apesar de tudo, fez-se o que se pode.

Aposto que se estivesse com ele, não teria as capas das revistas tatuadas na cabeça, nem aversão à paredes brancas e sofás de quatro lugares. Certamente nem estaria aqui, me confundindo toda quando o telefone toca. Com certeza não atenderia

- Consultório médico,

Quando na verdade deveria dizer

- Sebo Boa Esperança,

De preferência, sem lágrimas na voz.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Stand up poetry




Eu quero ser um verso partido,
um haiku quebrado,
um violão sem corda,
a lista é longa.

Deixa que eu seja direto,
uma flecha entre nós,
o chão que você pisa,
os cacos partidos de um vaso qualquer.

Deixa que eu seja a gota da chuva
na lente dos teus óculos,
a coceira no meio das costas,
a vontade lasciva por chocolate.

Quero ser esta noite o gosto pelas coisas belas
o teu corpo no box do chuveiro
escondido pelo vapor.

Deixa eu ser o amor.


Antes que me torne aquela saudade,
a porta aberta da rua,
a vontade de ir para casa,
a folia tranquila de uma madrugada
terça de carnaval.

R.B.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O nascimento de uma idéia morta




Querem me entender, eu sei, querem me entender e ficam imaginando

- por que diabos esse velho carrega esses discos para lá e para cá

Enquanto eu caminho alheio aos olhos, aos semáforos que mudam de cor para os outros

- sempre para os outros,

E as buzinas dão o ritmo dos meus passos, que eu acelero conforme elas se aproximam

- quer morrer, velho?

Gritam os capacetes, os punhos em riste para fora dos carros, vibrantes como cordas vocais, as retinas exaltadas, os olhos vermelhos, sequer notam os discos que eu carrego debaixo do braço, sem sacola, com a cantora estampada na capa, um microfone antigo próximo aos lábios, há mais dois debaixo deste, que me serve de estandarte, para suscitar a curiosidade nas pessoas, nas outras pessoas, não naquelas que se resumem à coisas pequenas como

- quer morrer, velho?

E não aproveitam para ver que há uma relíquia do jazz nos debaixo dos meus braços; se soubessem, talvez tivessem me dado passagem, tivessem reduzido a velocidade, ou quem sabe até

- quer uma carona, senhor?

Mas não é assim que as coisas funcionam por aqui.

Enquanto cruzo o viaduto meus passos são longos, pois gosto de encarar os pombos nos olhos; são eles os donos deste viaduto, eu sempre soube disso, tomam conta da cidade pelas manhãs, protegem as esquinas enquanto se alimentam de restos. Eles viverão de nossos restos enquanto sempre serão inteiros, hirtos, nos beirais das pontes, dos viadutos, e nós sempre seremos os restos de que eles vão se alimentar. Debaixo do viaduto há uma vontade, um sonho adolescente, um sonho de liberdade que não se conquista com o pagamento em dia dos carnês, dos boletos, de todas as coisas que arremessam por debaixo da minha porta, sem saber ao certo se pertencem a mim mesmo, quando abro a porta para indagar

- você tem certeza que isso aqui é meu?

Já não há mais ninguém, é difícil perseguir as sombras nos corredores dos prédios antigos, elas se dispersam com as sombras que já ali habitam há anos, e se mesclam, e se misturam entre si, formando um corpo único de sombras que nunca responde pergunte alguma, a qualquer hora do dia; cansei de me sentar nos corredores a espera que alguma sombra saísse debaixo das portas para conversar, para compartilhar algumas coisas que havia pensado, para ouvir a voz de outra pessoa, mas as sombras são inatingíveis, num prédio do centro da cidade e toda luz, toda luz é apenas uma sombra que está a nascer.

Já estamos no final da tarde e os pombos, aqueles que levantaram mais cedo se retiram para dormir, e sobem aos telhados, às coberturas dos prédios, para o justo sono, e os carros acendem os semáforos, e daqui do alto vislumbro mãos solitárias de dentro do carro, trocando as marchas as estações do rádio, acendo os faróis. Ao menos eu tenho os meus discos, tenho esta mulher para passar as noites, com estes olhos negros abertos e estes lábios molhados, pintados com muito jeito, mais fulgurante que as luzes alaranjadas do fundo, mais fulgurantes que as luzes de todo o palco, luzes o bastante para não me fazer pensar nas sombras, nas pombas, nas bombas que dormem nas bocas dos carros

- quer morrer, velho?

E conforme o céu dá para se esconder atrás dos prédios eu acelero meu passo para meu apartamento; o centro da cidade não é lugar para um senhor como eu, para essa moça que segura tão docemente o microfone e aposto que está muito agradecida por eu tê-la tirado daquele monte sujo, daquele canto esquecido do sebo, onde a colocaram sem perceber que não era ali seu lugar, misturado com paisagens abstratas e homens cabeludos, vestidos com calça de couro. Seu lugar era num pedestal, logo na entrada para que todos pudessem admirar. Sim, definitivamente, ela está agradecida e não merece perambular pelas ruas escusas do centro da cidade, onde a qualquer momento, lábios, às vezes não tão puros quanto os dela, chamarão

- psiu,

E seguido do

- psiu,

Vira um aceno com o dedo, fino de fome, porém ornado com um esmalte rosa, ou vermelho, coordenado com a cor da blusa fina, quase transparente, denunciando formas vivas recheadas de lágrimas que não se derramarão nunca, pois, caso comecem não terminarão nunca, e toda a cidade será inundada, por isso, que as lágrimas se trancam num

- psiu,

E se escondem entre a sujeira das unhas tingidas de vermelho ou rosa, ornando com a cor da blusa, fina, gasta, quase transparente, denunciando com um pudor tocante as formas do sacrifícios que me faz pesado de dó. Em pouco tempo, os chamados

- psiu,

Vão ficando distantes. Não tenho dúvida que alguém perguntará, em breve,

- quer uma carona?

E a garota, a essa altura, congelando de frio, vai deixar de fazer bolar com chiclete, vai deixar de pensar

- que merda de dia,

Ou coisa parecida, e vai entrar no carro, e aceitar a carona para lugar nenhuma, para logo ali, esquecendo-se de que, dentro de vinte ou trinta minuta, estará de volta, com um

- psiu

Um pouco mais fraco, um pouco mais rendido às lagrimas que, que derem para cair, não param nunca mais e hão de inundar todo esse mundo.

Quando chego no meu prédio, é a luz do poste que me dá

- boa noite, senhor,

Não é o rapaz largado no chão, com um pé faltando o chinelo, ou a senhora gorda do outro lado da rua, desafiando a consistência da cadeira de praia com seu corpo cansado, que me dirigem à palavra, não são as garotas que passam segurando as bolsas com as duas mãos ou os olhos assustados. É a luz do poste que ilumina meu caminho, inclina o tronco, olha-me nos olhos, estende a mão, indicando a porta de entrada, quase sempre obstruída com o rapaz alto, magro, sempre usando óculos escuros, que cede tão pouco espaço para que eu possa entrar, que temo esbarrar meu corpo no dele e derrubá-lo; mas isso nunca aconteceu. Apesar da magreza, todas as vezes que esbarro no corpo do rapaz sou eu quem sou jogado para o lado e por pouco não caio de volta na rua. Às vezes murmuro,

- perdão,

Mas quando olho para trás já é tudo sombra. O rapaz já é sombra, os óculos escuros, a porta obstruída, sutilmente encostada pelo vento.

Porém, desta vez não havia rapaz, nem pouco espaço para que eu pudesse passar, nem trombada, nem

- perdão.

Mesmo assim, mesmo não havendo nada, a porta silenciosamente encosta e tapa a entrada da luz que cordialmente me mostrou o caminho e dirigiu-se a mim tão educadamente,

- boa noite, senhor.

Com um certo pudor, tapo os olhos da mulher que segurava o microfone como se fosse uma rosa, não quero que ela veja o matiz das paredes que servirão de platéia para sua voz, não quero veja os corredores por onde terá que passar para entrar no meu quarto, não quero que veja a umidade que domina todo o canto esquerdo do andar; ela deverá ver apenas o meu quarto, minha cama empilhada de livros antigos, discos, roupas, e que, apesar da estarem ali estão limpos, e não foram contaminados pelo ar viciado do prédio. Por isso, apenas quando abro a porta do quarto, e fecho-a atrás da mim, destampo os olhos da mulher cujos lábios abertos parecem prevenir um sussurro, quiça um beijo, desses de carinho, que vem junto o sol da manhã, que ela ficará muito feliz em saber que preenche todo o meu quarto, e eu faço questão de deixar entrar, por isso mesmo não comprei cortinas.

Deixo-a separada dos outros que também salvei da pó, da poeira, do mofo, do esquecimento, deixo-a repousada na única cadeira do cômodo, bem diante da máquina de escrever, sem papel, sem tinta, com algumas teclas totalmente cegas, e enxó uma pequena panela com água, não digo que é da torneira, não digo, e preparo um café. Um a um coloco os livros diante da porta, já devidamente trancada, coloco as roupas em cima da máquina de escrever. Não são muitas, um homem da minha idade já não carece de tantas roupas assim. Tiro os sapatos, coloco-os debaixo da cama, volto para a cozinha, não sem antes acariciar os cabelos da mulher, que tem os olhos tão negros, tão penetrantes que são duas explosões prestes a nascer, bem ali, na minha cadeira, enquanto eu faço o café.

Dou o primeiro gole sem oferecer a ela, deixo escapar, em voz alta, para a cortina que divisa a pequena cozinha do meu quarto,

- não tem açúcar, por isso não ofereci.

E volto para a sala, que também é meu quarto, que também é meu refúgio, e é minha memória e dou para observar os retratos, não são meus. Já estavam aqui quando eu cheguei. Mas este garotinho, com essa bermuda – julgo ser marrom – presa por suspensórios, e esse bonezinho, poderia ser eu, sem dúvida poderia ser eu. Esse homem com bigodinho fino, e cabelo bem separado, poderia ser meu pai, talvez tudo tivesse sido diferente se esse homem caridoso, que faz questão de posar de mãos dadas com seu filho na foto, fosse meu pai.

Estou neste apartamento, no andar térreo deste prédio no centro da cidade há pouco tempo; foi o único que consegui alugar com uma aposentadoria que inventaram para mim. No mesmo dia que descobri que podia contar com uma aposentadoria, um rapazinho, que poderia ser eu, mas era meu filho, decidiu que não era mais possível que eu ocupasse um quartinho um pouco menor que esse aqui, nos fundos da sua casa.

- Não tem problema, filho. Sabe que não quero incomodar.

E não me lembro o que ele disse, ou se ele disse alguma coisa, ou se foram as costas dele que me deram a impressão de ter tido alguma coisa, que não eram palavras, mas sim, um simples

- não é possível que você continue a viver aqui,

Em resposta a esta afirmação, dele, ou das costas, ou da cama que rangeu quando eu me sentei, respondi,

- Não tem problema, filho. Sabe que não quero incomodar.

Um dia, provavelmente contarei toda minha história a ela, que está ansiosa para que eu tire esse disco negro de dentro do plástico e preencha o quarto com a sua voz, com a sua melodia, com a energia que emana de seu corpo esguio, de vida; pego o disco, giro-o entre os dedos, vendo-o dos dois lados, abraço-o, pouso-o perto do coração para que ouça primeiro a minha música, depois, outra hora, contarei toda minha história a ela, mas antes, preciso pensar em como direi que não tenho aparelho de som.