domingo, 4 de julho de 2010
Paixão
sábado, 3 de julho de 2010
LUTO EM DOBRO - MORRE ROBERTO PIVA
segunda-feira, 28 de junho de 2010
ALBERTO GUZIK - RIP

Sentia pela respiração longa e tranqüila que ela começava a dormir, mas eu não conseguia acompanhá-la. Havia alguma coisa na minha cabeça, algo que eu não sabia se devia ou não fazer: um dilema.
Semana que vem, terei compromissos inadiáveis, coisas oficiais envolvendo meu salário, meu trabalho, complete bullshit e perda de tempo, pensei. Assim, usando o melhor critério que há para escolha de algo – a eliminação – decidi que me sobrava apenas amanhã para me despedir de uma amiga. Uma grande amiga.
- Acho que amanhã vou me despedir da Velha – disse.
- Hein? – perguntou minha mulher.
- A Velha. Lá na Roosevelt. Tenho que ir amanhã, semana que vem vai ser impossível, palestras, trabalhos; tem que ser amanhã.
- Amanhã eu não posso ir – respondeu meio dormindo, meio acordada – tenho reunião cedo na sexta – e apagou completamente. Só ouviria sua voz novamente no dia seguinte.
Tudo bem, pensei. Amanhã eu vou. Qualquer coisa eu vou sozinho; eu me dou bem o suficiente com a Velha pra visitá-la desacompanhado.
Satisfeito com a minha resolução, joguei o gato no chão, em cima do cachorro, e dormi.
Quinta-feira, 21 de maio de 2009.
- Felipe, tá a fim de ir ver a Velha hoje?
- Hoje? – perguntou a voz do outro lado da linha.
- É, porra! Eu disse hoje, não disse? Hoje, quinta.
- Você andou cheirando? Tá mais acelerado que o Road Runner (Papa-Léguas em português, mas Road Runner é mais conveniente, digamos assim...). Relax, cara. Relax. Mais tarde eu te ligo e combinamos.
Ele topou. Assim que fareja cerveja, conversa jogada fora e mesa de bar na Praça Roosevelt, ele cancela até reunião com o presidente. É um cara bacana.
Eu e o Felipe chegamos mais cedo, tomamos umas cervejas, fumamos uns cigarros, negamos umas esmolas, nada fora do comum.
Onze horas, a Roosevelt lotada, gente bebendo, fumando, rindo. O coração da cidade batia ali, naquela praça.
Gosto das noites de São Paulo. Não importa onde você está, tem movimento, gente falando e histórias pra contar e isso é o mais importante.
Eram onze e dez ou onze e quinze quando tocou o sino. Fui um dos primeiros a entrar e escolhi meticulosamente meu lugar. Assim que sentei os acontecimentos se passaram como um relâmpago e tal qual um relâmpago, um lampejo de vida, os descreverei.
Estava ansioso. Essa noite será diferente, seremos apenas a Velha e eu, pensei. O Felipe estava preocupado com um casal de lésbicas se beijando num canto, ele pensava se elas deixariam ele entrar na dança se pagasse um traguinho pra elas.
Sento na minha cadeira, inquieto. Minhas mãos suando, síndrome das pernas inquietas, Felipe bêbado, lésbicas se beijando e ele cada vez mais próximo delas, salivando.
Aplaudi fora de hora, ecos, a Velha me olha, ouço risos. Ela me encara. Naquele tempo as pessoas tinham talento; essa frase ecoa na minha cabeça como um diapasão. Neruda passa dançando à minha frente, bêbado como eu; dançamos funk juntos. A Velha não gosta, reclama e bebe da nossa garrafa. Cigarros importados enfeitam a mesa e nossas mãos.
Entra um moleque estranho, tatuagem inidentificável no braço, rouba a cena. “Maldito, como ousa!” penso com os meu botões, sentindo falta da Velha. O rapaz é bom, até que gosto dele e olha que não sou de gostar das pessoas, muito pelo contrário. Turbilhões e muitas coisas se passando pela minha cabeça. Posso dormir aqui; posso morar aqui e virar uma espécie de negociador. Se depender de mim a Velha nunca vai se sentir sozinha. Já trouxe umas quinquishmintilhacacan pessoas pra conhecê-la. Todos a adoram. Ela gosta, eu sei que ela gosta, conheço seu sorriso.
Ela volta a me encarar, come uma banana com dignidade e respeito inimitáveis, exatamente como fazia no seu tempo de star. Eu estou zonzo, com o coração se remexendo fora do ritmo da dança. Desligam meu celular. Este texto está muito estranho, alguém chama o Dr. Kafka, por favor.
Vi a Velha parir na minha frente. Chorei. Não queria ir embora, mas sabia que estava no fim. As luzes acenderam, ela não estava mais lá. Olhei o cenário ao meu redor, lembro da primeira vez que pisei ali. A primeira vez.
A primeira vez que vi a Velha me choquei comigo mesmo, com o Universo, nem um pouco a contragosto; na segunda ri, entendi-a, nos entendemos. Naquela noite escureceu mais do que o normal; não me incomodei. Na terceira, agora sim a contragosto, chorei.
Não pude dizer adeus à Velha da forma que queria. Embora a noite tivesse sido para nós dois - eu e ela, num reservado, no escuro, compartilhando Vodca barata -, ainda queria dizer algumas coisas antes de ir embora, mas não pude. Os ônibus depois da meia-noite param de circular pelas ruas e, da casa da Velha para a minha são duas horas – se eu conseguir pegar o último ônibus, é claro - ou noventa reais de taxi – eu sei por experiência própria. Então parti com palavras perdidas nos lábios e coração vazio como o copo que ela deixou em cima da mesa.
Cheguei em casa abatido e descabelado. Parecia um acidente de carro. Minha mulher me abraçou. Sabia o que tudo aquilo queria dizer pra mim. Um fim provavelmente irremediável. Teria que guardar minha máquina de escrever e colocar as cartas que eu havia escrito prum escritor que tenho como um amigo, Hackmuth, na gaveta. Sem a Velha por perto, tudo perde um pouco o sentido e o matiz.
Na cama, minha mulher colocou minha cabeça em seu colo. Cafunés intermináveis e apenas uma única voz conversava comigo: “Naquele tempo as pessoas tinham talento...”, “naquele tempo, as pessoas tinham respeito”, “naquele tempo...”.
- Ela vai voltar. Eu sei que vai. Sua amiga vai voltar. – dizia minha mulher.
As palavras dela me acalmaram pela simples razão de sempre estar certa.
Minha mulher sabe das coisas.
Dedico essas linhas tortas ao Marcelo Mirisola, Alberto Guzik e Chico Ribas.
BRAZUL - Ricardo Bruch

Brasil (sil sil sil), é o nome do soldado que queima a brasa no peito, azul, beija a boca do fuzil, azul, (sil sil sil), do menino, da menina, Brasil teus peitos estão à mostra, tuas veias, tuas cicatrizes, estrias nos asfalto de madrugada, um grito enlatado, entalado na garganta o dia inteiro, Brasil, que hoje é dia de jogo, todo dia é dia de jogo, todo dia, dia de fogo no corpo, nos telhados, nas casas do soldado, das meninas, dos meninos, lambendo as tetas das lombadas, beijando o bico do fuzil, queimando o coração azul, o mamilo azul, Brasil, esconda tuas cicatrizes, por que hoje é dia de jogo, atirei sim, não nego, ele reagiu, Brasil, o menino, a menina, reaja, Brasil, que teu azul não é anil, que ninguém dorme tranquilo no teu colo, que teu leite é sujo, muito embora azul.
Por que teus olhos são vermelhos?
Brasil não dorme, tem lembrança, não tem memória, tem nos dedos um quê de euforia que acaricia o clitóris do gatilho, do fuzil, azul, meninos, meninas azuis, escondidos nas tuas ancas, debaixo da madrugada, das ranhuras do cimento, escondidos sim que eu vi, Brasil, é o nome do menino caído, segurando o fuzil, uniforme azul, Brasil, é o nome da menina, perdida entre as tuas ruas, entre estreitas veias, entre o vão dos teus dentes há melancolia, azul, que tristeza é essa que ronda os teus quatro cantos, da carroça à cachaça, não chora, fica quieta, fica azul no dia de jogo, a chama do fogo azul, a fumaça, no meu peito Brasil.
Por que teus dedos são vermelhos?
(Sil sil sil)
O tempo corre na minha alma, calma, mãos ao alto, deita com calma, na cama de cimento do velho Brasil e teus abortos malfadados, meninos e fadas azuis, nem verdes, nem amarelos, azuis, almofadas azuis, no dia do jogo, mãos ao alto, eu corro para fugir do tempo do teu ventre Brasil, visualiza, legaliza, mobiliza Brasil, os teus fuzis na marcha da memória aberta da tua história, minha história, a história do soldado que morreu nas mãos da menina Brasil, por falta de dinheiro para uma trepada sem recheio, com gemido e sem amor, sem verde, sem amarelo, ouviu, Brasil.
Por que teus pés são vermelhos?
Corre Brasil, do céu, da mata, da árvore, das plantas, dos pássaros azuis, sil sil sil, acorda, já é tarde, sil sil sil, Brasil, que não tem fim nas linhas do trem, vem que tem, Brasil, tem começo, tem meio, tem sim, fim, Brasil de Souza, da Silva, Pontes cruzando tua espinha de metal azul, fabricada por gente sem olhos azuis, iguais aos teus, Brasil, da Nóbrega, dos Santos, dos fundos das lanchonetes onde as carnes morrem de fome, Brasil do meu sentido, dos meus pais, país de sofreguidão e ardil, fuzil escondido debaixo do travesseiro das minhas angustias.
Por que teu projétil é vermelho?
E da minha janela eu vejo teu céu, Brasil, tuas praças, coretos, pastores, prendas e preces, quermesses para quem, meu Deus, azul, olhando pelo Brasil soldado, menino, menina, suas plantas verdes, seu rebanho pálido, os Deuses sempre azuis, plantando flores de icterícia, nos campos verdes da tevê, se vê ali Brasil, entre os dentes do fuzil, estocadas debaixo do lençol, debaixo do teu véu, nem verde nem amarelo, bafo quente no vidro, negro, tão negro que é azul, não se vêem teus cães, teus gatos, teus canários dormindo nas gaiolas do pensamento, Brasil. Por que tuas grades são vermelhas?
Cadê teu cântico? Teu filho? Tua herança? Teu hino, teu húmus desgastado, depredado, traficado, adubado pelas mãos do Brasil, azul, dos pássaros agora extintos, (sil sil sil), do azul em extinção, de mim, de tu, de nós, da língua que morre e lambe tuas varizes tatuadas nas passadas, nas calçadas, na calada da noite, Brasil, tua celulite, buracos nas estradas, rodas, roda a roda Brasil, fica rico Brasil, manda teu fuzil para fora do meu mundo, manda teu filho para fora do teu mundo, Brasil, pra outro planeta azul, onde terá outro Brasil, natimorto, remendado, menino chamado, menina chamada, Sil, Sil, Sil, ninguém, escuta, chama a chama e morre pela queimadura do teu beijo.
Por que tuas lágrimas são vermelhas?
Brasil do sumiço, do deixa disso que hoje é dia de jogo, pego, largo, deito, infecto gripe dos teus pulmões virulentos, purulentos, macilentos da terra azul, é difícil continuar, irmão, irmã azul, dos jazigos no quintal, da lápide ilegível, da letra ilegível, da lei, do tempo, da fome, dos teus rins Brasil, me pergunto, por que Brasil, não Ilha de Vera Cruz, não Terra de Santa Cruz, Terra do Brasil, pau, Brasil, pau de antanho, de outro, de prata, de mulher, lá fora, o escravo, a janela da nossa solidão se fecha, por que hoje é dia, Brasil, hoje é dia e eu me pergunto.
Por que meus sonhos são vermelhos?
Foto retirada do site : http://gilgiardelli.wordpress.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Um momento
terça-feira, 22 de junho de 2010
O Artista
Se eu fosse artista saberia escolher as palavras mais belas e as organizaria de modo que te fizessem corar, e fizessem seu peito arquejar.
Mas não sou artista, não sou escritor, muito menos poeta. Não há cartazes na rua com meu rosto estampado, não há sessão de autógrafos, nem nada no meu nome que me identifique.
Mesmo assim faço questão de suar, perder noites e horas na esperança de ver o palco se iluminando com brilho de seus olhos acompanhados da ovação do seu sorriso, e mesmo que perdure um segundo, sentir num abraço, seu coração a me aplaudir de pé.
Mas tem um momento em que o artista sai de cena e é obrigado a ver a cortina se fechando, a orquestra parando e os aplausos amainarem; sem reconhecer um rosto sequer e sem ter riso por almejar, o artista se disfarça de sujeito comum e saí pela porta dos fundos rumo a um quarto de hotel qualquer, que de ser igual aos outros não vai se lembrar nunca.
Eu, que não sou artista, mas acompanho a todos, recolho-me para o bar, onde posso ser o artista que quiser. Peço a bebida mais cara, acendo um cigarro, mas sem beber nem tragar, durmo cansado, esperando algo que me não sei se vale a pena esperar.
Uma hora depois acordo sobressaltado, relembro que não sou artista, pego minha jaqueta, pago a conta do bar e ando na rua em busca de um rosto familiar qualquer.
Chego em casa com o Sol a me empurrar, jogo as chaves na mesa posta, e recito um poema de amor àquela que dorme e sonha. Sonha que sou artista, ilumina meu palco com o brilho de seus olhos, acompanha a ovação com seu riso, e, com entusiasmo de fã incondicional, me abraça pela eternidade, fazendo meu coração sentir seu coração me aplaudindo de pé.
Do Mestre Dostoievski

Príncipe V.F. Odoiévskii
Extraído de Gente Pobre - Dostoievski, Fiodor - Ed. José Olympio -1960
