terça-feira, 22 de junho de 2010

O Artista

O texto dessa semana é um texto antiiiiiiiiiiiiiigo, lá do começo de 2008, quando eu sabia bem menos do que sei de literatura e escrita hoje. Mas é um texto que gosto. Um texto juvenil, pueril até. Talvez até me envergonhe de mostrar, mas eu gosto. Perdoem, eu gosto.

O Artista

Se eu fosse artista colocaria no papel o que meu coração insiste em gritar, meus ouvidos se forçam a musicar mas minha boca não pronuncia.

Se eu fosse artista saberia escolher as palavras mais belas e as organizaria de modo que te fizessem corar, e fizessem seu peito arquejar.

Mas não sou artista, não sou escritor, muito menos poeta. Não há cartazes na rua com meu rosto estampado, não há sessão de autógrafos, nem nada no meu nome que me identifique.

Mesmo assim faço questão de suar, perder noites e horas na esperança de ver o palco se iluminando com brilho de seus olhos acompanhados da ovação do seu sorriso, e mesmo que perdure um segundo, sentir num abraço, seu coração a me aplaudir de pé.

Mas tem um momento em que o artista sai de cena e é obrigado a ver a cortina se fechando, a orquestra parando e os aplausos amainarem; sem reconhecer um rosto sequer e sem ter riso por almejar, o artista se disfarça de sujeito comum e saí pela porta dos fundos rumo a um quarto de hotel qualquer, que de ser igual aos outros não vai se lembrar nunca.

Eu, que não sou artista, mas acompanho a todos, recolho-me para o bar, onde posso ser o artista que quiser. Peço a bebida mais cara, acendo um cigarro, mas sem beber nem tragar, durmo cansado, esperando algo que me não sei se vale a pena esperar.

Uma hora depois acordo sobressaltado, relembro que não sou artista, pego minha jaqueta, pago a conta do bar e ando na rua em busca de um rosto familiar qualquer.

Chego em casa com o Sol a me empurrar, jogo as chaves na mesa posta, e recito um poema de amor àquela que dorme e sonha. Sonha que sou artista, ilumina meu palco com o brilho de seus olhos, acompanha a ovação com seu riso, e, com entusiasmo de fã incondicional, me abraça pela eternidade, fazendo meu coração sentir seu coração me aplaudindo de pé.

Um comentário:

Bruno Batista disse...

Este texto deixa transparecer um toque de romantismo que muitos escondem. Como vc mesmo disse, é pueril e jovial.
Saiba que me identifiquei bastante com esse conto.

Parabéns!

Abração!