segunda-feira, 28 de junho de 2010

BRAZUL - Ricardo Bruch


Brasil (sil sil sil), é o nome do soldado que queima a brasa no peito, azul, beija a boca do fuzil, azul, (sil sil sil), do menino, da menina, Brasil teus peitos estão à mostra, tuas veias, tuas cicatrizes, estrias nos asfalto de madrugada, um grito enlatado, entalado na garganta o dia inteiro, Brasil, que hoje é dia de jogo, todo dia é dia de jogo, todo dia, dia de fogo no corpo, nos telhados, nas casas do soldado, das meninas, dos meninos, lambendo as tetas das lombadas, beijando o bico do fuzil, queimando o coração azul, o mamilo azul, Brasil, esconda tuas cicatrizes, por que hoje é dia de jogo, atirei sim, não nego, ele reagiu, Brasil, o menino, a menina, reaja, Brasil, que teu azul não é anil, que ninguém dorme tranquilo no teu colo, que teu leite é sujo, muito embora azul.

Por que teus olhos são vermelhos?

Brasil não dorme, tem lembrança, não tem memória, tem nos dedos um quê de euforia que acaricia o clitóris do gatilho, do fuzil, azul, meninos, meninas azuis, escondidos nas tuas ancas, debaixo da madrugada, das ranhuras do cimento, escondidos sim que eu vi, Brasil, é o nome do menino caído, segurando o fuzil, uniforme azul, Brasil, é o nome da menina, perdida entre as tuas ruas, entre estreitas veias, entre o vão dos teus dentes há melancolia, azul, que tristeza é essa que ronda os teus quatro cantos, da carroça à cachaça, não chora, fica quieta, fica azul no dia de jogo, a chama do fogo azul, a fumaça, no meu peito Brasil.

Por que teus dedos são vermelhos?

(Sil sil sil)

O tempo corre na minha alma, calma, mãos ao alto, deita com calma, na cama de cimento do velho Brasil e teus abortos malfadados, meninos e fadas azuis, nem verdes, nem amarelos, azuis, almofadas azuis, no dia do jogo, mãos ao alto, eu corro para fugir do tempo do teu ventre Brasil, visualiza, legaliza, mobiliza Brasil, os teus fuzis na marcha da memória aberta da tua história, minha história, a história do soldado que morreu nas mãos da menina Brasil, por falta de dinheiro para uma trepada sem recheio, com gemido e sem amor, sem verde, sem amarelo, ouviu, Brasil.

Por que teus pés são vermelhos?

Corre Brasil, do céu, da mata, da árvore, das plantas, dos pássaros azuis, sil sil sil, acorda, já é tarde, sil sil sil, Brasil, que não tem fim nas linhas do trem, vem que tem, Brasil, tem começo, tem meio, tem sim, fim, Brasil de Souza, da Silva, Pontes cruzando tua espinha de metal azul, fabricada por gente sem olhos azuis, iguais aos teus, Brasil, da Nóbrega, dos Santos, dos fundos das lanchonetes onde as carnes morrem de fome, Brasil do meu sentido, dos meus pais, país de sofreguidão e ardil, fuzil escondido debaixo do travesseiro das minhas angustias.

Por que teu projétil é vermelho?

E da minha janela eu vejo teu céu, Brasil, tuas praças, coretos, pastores, prendas e preces, quermesses para quem, meu Deus, azul, olhando pelo Brasil soldado, menino, menina, suas plantas verdes, seu rebanho pálido, os Deuses sempre azuis, plantando flores de icterícia, nos campos verdes da tevê, se vê ali Brasil, entre os dentes do fuzil, estocadas debaixo do lençol, debaixo do teu véu, nem verde nem amarelo, bafo quente no vidro, negro, tão negro que é azul, não se vêem teus cães, teus gatos, teus canários dormindo nas gaiolas do pensamento, Brasil. Por que tuas grades são vermelhas?

Cadê teu cântico? Teu filho? Tua herança? Teu hino, teu húmus desgastado, depredado, traficado, adubado pelas mãos do Brasil, azul, dos pássaros agora extintos, (sil sil sil), do azul em extinção, de mim, de tu, de nós, da língua que morre e lambe tuas varizes tatuadas nas passadas, nas calçadas, na calada da noite, Brasil, tua celulite, buracos nas estradas, rodas, roda a roda Brasil, fica rico Brasil, manda teu fuzil para fora do meu mundo, manda teu filho para fora do teu mundo, Brasil, pra outro planeta azul, onde terá outro Brasil, natimorto, remendado, menino chamado, menina chamada, Sil, Sil, Sil, ninguém, escuta, chama a chama e morre pela queimadura do teu beijo.

Por que tuas lágrimas são vermelhas?

Brasil do sumiço, do deixa disso que hoje é dia de jogo, pego, largo, deito, infecto gripe dos teus pulmões virulentos, purulentos, macilentos da terra azul, é difícil continuar, irmão, irmã azul, dos jazigos no quintal, da lápide ilegível, da letra ilegível, da lei, do tempo, da fome, dos teus rins Brasil, me pergunto, por que Brasil, não Ilha de Vera Cruz, não Terra de Santa Cruz, Terra do Brasil, pau, Brasil, pau de antanho, de outro, de prata, de mulher, lá fora, o escravo, a janela da nossa solidão se fecha, por que hoje é dia, Brasil, hoje é dia e eu me pergunto.

Por que meus sonhos são vermelhos?

Foto retirada do site : http://gilgiardelli.wordpress.com

Um comentário:

Bruno Batista disse...

Esse texto me fez lembrar do poema do Oswald de Andrade:

"O Brasil é uma República
Federativa cheia de árvores
e de gente dizendo adeus".

Brasileiro não está nem aí para os nossos problemas sociais, é um povo festeiro que passa fome e sonha em ir morar na Europa. Valeu pela ousadia de escrever um texto que pode incomodar pelo tema, pelo escândalo, pela notável nudez de demagogia. Parabéns, meu caro. Parabéns.