quarta-feira, 9 de junho de 2010

Estação Paraíso - Ricardo Bruch




- Moço como faço para ir pra Paraíso?

- Só seguir a fila daquele lado.

- Poxa, justo a fila que é maior!

- Todo mundo quer ir pra Paraíso.

As pessoas se amontoam em seus precipícios de corpos e lágrimas de suor, prendem a respiração e vão. Alguns se perdem, acabam na Consolação ou nos braços de seus Santos (Bento, Judas, Joaquim).

Mesmo sem seguir a Luz

- Todo mundo quer ir pra Paraíso,

com mochilas nas costas, bolsas pesadas de nada, papel, papel, papel, cremes para as mãos, batons no talo, espelhos trincados e carregadores de aparelho celular. Entram encurvados na estação, cansados, com a vista turva da velocidade cortante do trem, suspenso na linha azul que ninguém se dá conta. Protegem-se da chuva, formam filas e mais filas, filas para pegar fila, fila para se encostar, fila para fugir da fila, fila fica do lado de fora, para mofar na escada rolante de espera porque

- Todo mundo quer ir pra Paraíso,

mas ninguém quer tomar chuva.

Dentro da estação-purgatório Liberdade, almas e mais almas expulsas da Saúde sufocam, tossem, espirram e se esforçam para falar nos telefones; ouve-se do outro lado da linha algo repartido, interrompido, enquanto dizem

- Não to te ouvindo, não to te ouvindo,

e o vento bagunça os cabelos, a mulher derruba uma pasta com todas as contas pagas, e a garota de seios invisíveis enfia o dedo no ouvido e grita

- Não to te ouvindo, não to te ouvindo

para alguém que se desinteressa e se deslumbra com o movimento nas ruas, as cadeiras na calçada, pernas se roçando debaixo das mesas improvisadas, os copos de cervejas, as cinzas do cigarro perdidas debaixo da luz do poste na estação Luz, esquece-se da garota e seus berros de mil pulmões

- Não to te ouvindo, não to te ouvindo,

não desliga. Não desliga.

Quero sumir, pois não me sinto parte desse mundo universo-cloaca infinita; não gosto que me interrompam, me devolvam dos meus delírios estáticos, angústia silenciosa, angústia alheia e distante, distante dos garotos que roçam nas garotas com sorrisos de verão clandestino, distante do homem que bate fotos indecentes das mulheres dos seus sonhos; mas ao mesmo tempo tão perto da tempestade que deu para ser subterrânea e, além de ter molhado o túnel inteiro, inundou meu coração com dúvidas e lamentações (distantes, sempre distantes).

Tenho vontade de dizer:

- Vá você encontrar seu Paraíso.

Eu não sei onde fica, não sei.

- Vá você encontrar seu Paraíso;

você que saiu da sua Vila tranqüila de espectros e azulejos azuis das cozinhas mofadas, pipoca de microondas e pantufas de urso panda. Você que busca alento, sossego no ventre metálico de uma mãe com corpo de serpente, cuja voz é um grito de vento cronometrado.

- Vá você encontrar Paraíso,

que está com os dedos vermelhos por causa da sacola recheada de sonhos, sorrisos, sucos, com segundos contados para ruir e esparramar tudo no chão; está cansada de tentar, variar as horas e sempre dar de cara com esse formigueiro de santos esquecidos na porta do Paraíso, só porque

- Todo mundo quer ir pra Paraíso.

E o tempo come os relógios, pressa de celofane, ar viciado em expectativas do sossego, final de tarde, final da noite, do cursinho, final de tudo e o tempo começa a roer minhas unhas, e as pessoas ainda me perguntam:

- Moço como faço para ir pra Paraíso?

Eu ponho à termo minha epifania de lágrimas, suor, sacolas prestes a ruir, garotas, garotos, senhoras, o tempo a roer nossos olhos de acrílico, respondo:

- Não sei, vou para Sé.

A Sé dos anjos caídos, do cheiro de mijo que não chega no Paraíso, da Catedral esquecida, das chagas, dos pontos, putas, pontes e viadutos; não me pergunte mais do Paraíso, que dele não sei

- Vou para Sé,

esperá-la com os dedos em petição de miséria, fazendo o caminho oposto que ela fez; não me seguiu e foi pra Paraíso. Esqueceu que dia era hoje, esqueceu de pintar as unhas, exagerar no blush e no batom.

- Esqueceu?

- Esqueci.

E dei para pisar nas urtigas, nos lírios, morder as rosas, as margaridas as violetas desistiram de nascer, enfiei plantinhas azuis no nariz para não sentir o cheiro da Sé sem você, para não lembrar que você esqueceu,

- Esqueci.

foi parar no Paraíso com os risos tardios, o cansaço do mundo todo, as mães inchadas, o jornal de ontem e as unhas por pintar.

- Esqueci.

Eu deitado olhando as estrelas, rendido, rezando, pensando na vida distante de tudo, sobretudo me convencendo de que minhas entranhas estão fadadas pela vacina, pelo destino, pelo devir, ao sucesso que não saberei comemorar.

- Esqueci.

Deixo o tempo roer de mim o que restou, o rosto na fotografia em preto e branco, o vou te amar por toda minha vida no resto de gesso do meu braço esquerdo, sua letra, caneta rosa.

Perco-me nas vozes angelicais dos pastores da Sé, até que alguém me pergunta se estamos longe da Paraíso e eu engasgo com meu choro.

Um comentário:

Bruno Batista disse...

Andrezão, muito legal esse texto!!! Todo paulistano vai se identificar com a estória! O cotidiano perturbado da megalópole que é São Paulo... Um tema muito interessante. Vc foi muito feliz na escolha!

Abração!