terça-feira, 18 de maio de 2010

Acidentes

Oi mãe, só liguei para dizer que vou me atrasar. Estou perdido entre tantos escombros, que nem sei de onde surgiu tanto pensamento para cair em cima de mim, de uma vez só. Não estranhe minha voz, é a água dessa gente que só sabe fazer chorar e quase me afogou. Essa gente, em resposta às minhas perguntas, diz apenas: não sei, não sei, não sei... porém continuam caminhando, para onde? Não sei, não sei, não sei... É isso, acho que vou demorar. E talvez quando eu finalmente chegar, você ache que meus lábios estão um pouco esbranquiçados, que meus olhos voltaram estrábicos demais. Foi uma confusão que eu fiz na calçada; contudo me disseram que anotaram a placa e que alguém, um dia, há de tomar as devidas providências; então, não se preocupe. Se por algum acaso, você ouvir algum canto dizendo que fui visto caindo sem minhas asas de espuma, não acredite. Decerto que janela estava, sim, aberta, confesso; mas não a atravessei. Não agüentaria perguntar a mim mesmo o que foi que eu fiz, sabendo que nunca obterei uma resposta. Acho que estou chegando, mãe. Não devo demorar mais muito tempo. Verdade que já deveria estar aí, mas a estrada é que é ruim. As curvas, faceiras, deram para dançar comigo no colo e mudavam de direção conforme o canto dos pneus. Sorte minha que as paredes das suas entranhas eram feitas de marmelo. É possível que um cheiro de chuva invada seu nariz, meio inadvertidamente, feito gatuno, e que esse cheiro confunda um pouco a lembrança que tem do meu perfume. A culpa é minha. Fiquei tanto tempo deitado na chuva, que transformei todo meu corpo em gotas esparsas na janela. A qualquer momento agora, mãe, a campainha vai soar, e, se por coincidência, soar rápido demais, antes de desligarmos, foi porque peguei carona nas asas da saudade. Bom, preciso desligar, que o céu vai abrir, amanhã.

Um comentário:

Bruno Batista disse...

Puta, Andrezão!!! Esse conto é demais! Com "gran finale" e tudo! "Pegar carona nas asas da saudade". Etéreo, sublime e vibrante... Lembrei-me daquelas tragédias que ocorreram no início do ano, os desmoronamentos por causa da chuva no Rio de Janeiro. Esse conto é muito inteligente e daria para lê-lo num jornal! Cara, aqui vc marcou um golaço! Gol de letra! rsrsrsrs Abração