segunda-feira, 31 de maio de 2010

Um jazz Andrézão, um jazz

When He and I will be as one, canta a Nina enquanto meus dedos congelam e meus pés clamam para serem sufocados pela meia; canta para minha alma careca e aos meus olhos secos, entretidos com essa parede doente, que não ouvia sua voz, when He and I will be as one, grave, cantando do fundo de uma garrafa de vinho que não era para ser minha; eu sem poder ligar para minha mulher e dizer que o vinho está com gosto de vinagre. Posso ligar pro Massa ou pro Brunão, dizer tudo está perdido amigo, acabou a fé, quando a única coisa que queria era ligar para minha Pequena e dizer que não sei onde estão as minhas meias, que meus dedos estão gelados, todos eles, da mão, do pé, da nuca, das costas, tudo gelado, com a voz arranhada da Nina ao fundo He and I will be as one, e eu imaginando quando você, Pequena, cantava essa música para mim. Sinto mais frio, as paredes mais graves, a garrafa mais funda e você me perguntando se andei bebendo sozinho de novo, sem razão para mentir digo que o vinho está com gosto de vinagre, e você a qualquer momento vai dizer tenho que ir, vai começar a aula. Respondo para a mudez simpática do telefone que o vinho está com gosto de vinagre.
O disco roda na vitrola, eu me pergunto quantas rotações tem essa porra, pergunto em voz alta pras meias espalhadas pelo quarto como bolas da árvore de natal, protegidas pelo pó no fundo do armário, pergunto pras janelas fechadas, sofrendo os golpes da chuva, minha Pequena logo mais estará na chuva cantando baixinho He and I will be as one, e eu já em casa perguntando pra cadeira mais agasalhada do que eu quantas rotações tem essa porra, me referindo ao meu coração. A Nina diz pra mim I put a spell on you, e me sinto amaldiçoado, só por ter dito I put a spell on you, menos afinada que minha Pequena.
Penso, se eu pudesse escolher, que palavra eu seria.
Vinagre.
Disse em voz alta, com todas as letras Vinagre. Quis ligar para minha Pequena e dizer oi amor, eu sou vinagre, e desligar, rindo como quem toca a campainha das casas e sai correndo; depois vou ligar pro Massa, pro Brunão e convidá-los a tocarem campainhas e sair correndo também, debaixo do frio, com os dedos congelados, com a chuva a castigar as janelas abertas, plantando lágrimas nos olhos das paredes doentes. Vou ligar pra todos meus amigos, vamos tocar as campainhas e correr, amigos; a Nina canta esse vinho está com gosto de vinagre, ou melhor, ela grita And I don´t care If you love me, I´m yours right now. Saudades de falar com minha Pequena, que está na aula e não pode me atender, Desculpe o celular está programado para... Oi Pequena, o vinho está com gosto, ou melhor, I put a spell on you... deixe sua mensagem após o... because you´re mine.
Dou para pensar nos meus heróis, suas vísceras, vidas e me sinto vazio como um canudo, e dou para pensar em camas de hospitais, velas, velhas, cães e gatos pela metade, filhotes, avenida Santo Amaro, na fome, no gosto amargo na boca que não sai, eu juro que não sai. Ligo pro Massa, pro Brunão, pra Pequena, pra todos meus amigos, pra chorar um choro trôpego de bêbado, pra chorar os quartos de hospitais, os vivos, os poetas, a Nina, os gatos vivos, as mães, os cães vivos, os pais, os canudos que não afundam e são ocos, ligo para chorar a vida, especialmente para chorar a vida, e a meada que acaba de perder seu fio, nesse último gole de vinho que tem gosto de sangue.
Canta para mim quando eu acordar Pequena, canta outra coisa, não quero mais a Nina, não quero mais o celular que ninguém atende, canta para mim uma canção de ninar e me levanta desse chão, desgruda minha cara do livro de poesia, esfrega a saliva que escorre da minha boca pra gola da camisa branca, me levanta e me cobre com as roupas da cadeira mesmo. Canta, canta uma canção diferente, aquela que você sempre canta, melhor que a Nina, melhor que as minhas bobagens perdidas no seu caderno de estudo; canta uma canção de ninar, se essa rua, se essa rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar. Esquece o cansaço e embrenha seus dedos no meu cabelo, beija minha cabeça, liga pro Bruno, pro Massa, pra todos os meus amigos e diz que nem tudo está perdido, ainda há fé. Eu te agradeço amanhã, primeira coisa de manhã. Eu prometo.

Em forma de canudo, 31 de maio de 2010.

2 comentários:

Bruno Batista disse...

De um fato simplório como estar sozinho em casa, olhando para as paredes e ouvindo música, vc tirou um conto permeado de angústia e desejos de fugir do tédio, apontando como comprimidos de remédio o querer estar perto das pessoas de que gosta muito. Um sentimento universal. Interessante. Esse é um dom do escritor, fazer de qualquer ambiente uma estória a ser contada, coisa que vc vem fazendo muito bem. Parabéns! Abraços!

Bruno Batista disse...

O que aconteceu com este post? Por que canudo? Por que "um algo"? Responda-me por e-mail se preferir... Abs.